23 de maio de 2011

Contatos Quase Imediatos de 64º grau - Vencedores do Festival de Cannes 2011


Por: Lucas Sá

Não posso afirmar se os vencedores da 64ª do maior e mais respeitado festival do mundo, Cannes, foram bem atribuídos, claro, não vi nenhum dos filmes da mostra, mas tinha meus favoritos aos prêmios, diretores de longas datas e obras. O festival esse ano foi marcado por filmes que retratavam a sociedade em degradação, sobretudo atréves do olhar juvenil da adolescência, ao qual foi um dos grandes temas por grande parte dos filmes exibidos. Como em We Need to Talk About Kevin, da diretora Lynne Ramsay. O filme, baseado no livro de mesmo nome, retrata um casal lidando com os traumas e problemas de seu filho, o longa ganhou Menção especial pela qualidade da montagem e da banda sonora. Outro que caiu no mesmo tema foi Restless, do Gus Van Sant, que já tem certa tendência a essa abordagem em filmes anteriores, como em Elefante e Paranoid Park, mas Restless vai infelizmente para o candidato a cult-indie-cool-amelie-movie. Gus Van Sant que havia se mostrado tão preciso e eficiente em retratar essa faixa etária se entregou a banalização, se assemelhando ao filme 500 Dias com Ela, que já deu no saco com seu estilinho a lá ''coolzão" europeu. Assim, Gus Van Sant decai e rejeita o realismo de seu "palmarizado" filme Elefante, uma pena. Seguindo o mesmo fio temático temos os filmes dos irmãos Dardennes, O Menino da Bicicleta, e o australiano Snowtwon do diretor Justin Kurzel, que perturbou toda a sala em sua exibição na mostra paralela da Semana da Crítica, por seu realismo e imagens fortes, tanto pela a violência quanto pelas cenas de sexo. O Menino da Bicicleta dos Dardennes foi visto como um filme sentimentalista e simples, faturando o prêmio Grand Prix ex-aequo (Grande Prêmio) que foi dividido também entre o filme Era Uma Vez na Anatólia, do diretor turco Bilge Ceylan, que foi muito elogiado pela a crítica. O longa acompanha um grupo de homens da justiça turca que submetem a dois suspeitos algemados de assassinato a mostrarem onde enterraram o cadáver de sua vítima.

O Júri esse ano foi composto pelos atores e diretores, Uma Thurman, Jude Law, Olivier Assayas e Johnnie To, e foi presidido pelo olhar do veterano e excepcional ator Robert De Niro, que já participou 8 vezes do festival com suas atuações em filmes como Taxi Driver e A Missão, ambos vencedores da Palma de Ouro em 1976 e 1986. Robert De Niro começou seu discurso dizendo que foi uma escolha difícil e que tentaram fazer o melhor possível, frase bem típica de todos os anos. O júri escolheu como grande vencedor da Palma de Ouro o filme A Árvore Da Vida, do diretor norte-americano Terrence Malick. Malick surpreendeu a todos e gerou divisão entre o público e a crítica faminta de Cannes, muitos vaiaram e outros muitos aplaudiram ao fim da sessão. Algumas notas na internet defenderam o filme como um misto do lirismo de 2001 - Uma Odisséia no Espaço com o universo fantástico da animação da Disney Fantasia, ao qual foi a principal referência do diretor brasileiro Marco Dutra (Trabalhar Cansa e Um Ramo) ao ver o filme. Malick é um diretor de poucos filmes, de 1973 à 2011 fez somente cinco obras, como o elogiado Terra de Ninguém e o guerreristico Além da Linha Vermelha. A Árvore da Vida e seu estouro sonoro e sensorial estreará nos cinemas nacionais dia 24 de junho, exatamente daqui a cinco semanas.

E para não deixar de falar do sempre bem-vindo e polêmico Lars Von Trier... A sensação de Cannes, o furo da fofoca, a frase marcante, o cara que fala merda, e a nova frase que já entrou no meu vocabulário, "persona non grata". Todas essas palavras foram exibidas em vários sites e jornais à figura de Lars Von Trier, que em Cannes concorreu com Melancolia. Seu humor sádico foi uma das efervescências de Cannes esse ano, acho que até a maior, seu nazismo foi usado como marketing barato para sua nova obra, que em menos de um dia estava falada a cada canto, até mesmo pessoas não muito ligadas ao cinema vieram me perguntar: "Nossa! Você viu aquele cara que é nazista em Cannes?", bem espertinho o Sr. Trier. Em 2009, quando estava concorrendo com o também polêmico Anticristo, Lars Von Trier soltou outra frase de efeito, "Eu sou o melhor diretor do mundo!", esse ano ele resolveu se aperfeiçoar na sua arte e foi mais a fundo, com o nazismo e hitler. Se ele é o melhor diretor do mundo? Ainda tenho minhas dúvidas sobre isso, mas estou me convencendo cada vez mais dessa frase. Melancolia saiu do festival com o prêmio de Melhor Atriz para Kirsten Dunst, que já havia sido vaiada em Cannes pelo filme Maria Antonieta de Sofia Copolla. Fiquei meio cabreiro com a escolha de Dunst para o papel. Lars Von Trier é barra pesada e gosta de pegar atrizes do grande escalão hollywoodiano para suas produções, como Nicole Kidman em Dogville, a rumores de que foi Paul Thomas Anderson (Sangue Negro e Boogie Nights) que indicou a atriz para o diretor, papel que antes seria de Penélope Cruz. Mesmo todos achando que Melancolia não iria ganhar nada, ainda assim recebeu o prêmio que já é intimo e quase "parente" do diretor, Dançando no Escuro e Anticristo são exemplos deste fato, com seus prêmios de Melhor Atriz para as cantoras Bjork e Charlotte Gainsbourg, que já atuou em variados filmes, como em 21 gramas. Dunst ainda afirmou depois da premiação que vai ser a protagonista do próximo projeto de Lars, A Ninfomaníaca, ao lado de Charlotte Gainsbourg. O filme promete ser um misto de drama com pornô hadrcore, ao fim da entrevista ela disse: ''dane-se o diálogo! A gente quer saber é de sexo desconfortável!'' Será? Espero que sim!

Já o prêmio de melhor ator foi para Jean Dujardin, com o filme L'Artiste (O Artista) do diretor francês Michel Hazanavicius. O filme caminha pelo o cinema mudo dos anos 20, não só pela temática, mas como também em relação a parte estética desse cinema misterioso e encantador. L'Artiste respeita de forma rigorosa o seu argumento, com diálogos por meio de cartões e cores em tons de cinza, o clássico black and white. Michel Hazanavicius já havia feito dois filmes, Agente 117 e OSS 117: Rio ne répond plus, ambos uma paródia dos agentes secretos do cinema norte-americano, inclusive, o segundo se passa no Brasil, como já é citado no título, Jean Dujardin é também o protagonista em ambos. Hazanavicius, em L'Artiste, continua com seu tom humor paródico, só que desta vez mais leve e sentimental. Assim, o filme foi de certa forma um descarrego para os espectadores e realizadores que já estavam turbilhados por mensagens pessimistas sobre a sociedade. Hazanavicius é um diretor que mesmo sendo pouco conhecido e com poucas obras já se pode notar certos apegos estilísticos e temáticos, que no caso, em seu três longas, foi o cinema norte-americano de décadas anteriores, uma nostalgia que conforta. É interessante mencionar que o filme entrou de última hora na mostra competitiva oficial.

Um dos filmes que mais aguardo do festival é A Pele que Habito, do Almodóvar. O filme que é uma experiência a parte em relação aos trabalhos do diretor não foi recebido com muitos elogios ou atenção pelo o público e júri, sendo mais respeitado e admirado pelo o júri jovem do festival, recebendo o Prêmio da Juventude, este júri é composto por estudantes de cinema em sua maioria com 18 a 25 anos. Outro que caiu no gosto tanto do público jovem do festival como também dos críticos foi o filme Drive, de Nicolas Winding Refn. Drive é um se apega a grandes perseguições de carro, como em Vanishing Point. O filme acompanha um dublê de Hollywood Land e seu envolvimento com o crime organizado. Alguma semelhança com A Prova de Morte do Tarantino? Nicolas Winding Refn é dono de um cinema para "macho", seus filmes abordam sempre algo com força física, como em seu filme Bronson, ou violência urbana, como na trilogia Pusher. O longa saiu com um dos prêmios mais importantes da noite, o de Melhor Diretor. Já o filme Polisse da bela atriz e agora diretora Maïwenn Le Besco, recebeu o Prêmio do Júri. Maïwenn Le Besco é uma atriz francesa que já atuou em O Quinto Elemento no papel da ET azul que canta ópera ( uma cena memorável), e também no ótimo horror de Alexandre Aja, Alta Tensão. Em Polisse, ao qual também atua, ela procurou analisar o trabalho da polícia parisiense e seu relacionamento com os caos de pedofilia e maus tratos contra crianças.

A Mostra competitiva Um Certo Olhar foi presidido pelo cineasta sérvio Emir Kusturica, que já ganhou duas Palmas de Ouro. O Prémio Um Certo Olhar esse ano foi dividido por dois filmes, algo que está se tornando constante no festival, o longa intimista Arirang de Kim Ki-Duk, e Stopped on Track de Andreas Dresen. Em Arirang o próprio diretor Kim Ki-Duk se filmou, em uma espécie de auto-documentário, já Stopped on Track é um filme sobre um homem que está prestes a morrer pelo seu grave câncer. O filme nacional Trabalhar Cansa, da dupla Marco Dutra e Juliana Rojas, não levou nenhum prêmio, os "parceiros" já realizaram um curta premiado em Cannes, Um Ramo (crítica aqui). Esse ano o Brasil entrou na competição com quatro filmes, Trabalhar Cansa na mostra Um Certo Olhar, Abismo Prateado (Karim Aïnouz) na Quinzena dos Realizadores, Permanências na Semana da Crítica e Duelo Antes da Noite de Alice Furtado na mostra Cinefondation de curtas universitários.

Só uma coisa, cadê os prêmios do Takashi Miike? Esqueceram dele... Como sempre.

Agradeço aos blogs do diretor Kleber Mendonça, o CinemaScópio, e do crítico Luiz Carlos Merten (link aqui), por me oferecerem esses Contatos Quase Imediatos de 64º grau com o Festival.

COMPETIÇÃO OFICIAL

PALMA DE OURO
- A Árvore da Vida, de Terrence Malick

GRANDE PRÊMIO
- O Garoto de Bicicleta, dos Dardenne & Era Uma Vez na Anatólia, de Nuri Ceylan

MELHOR DIREÇÃO
- Drive, de Nicolas Refn

PRÊMIO DO JÚRI - Poliss, de Maïwenn le Besco

MELHOR ATOR
- Jean Dujardin, por L'Artiste

MELHOR ATRIZ - Kirsten Dunst, por Melancolia

MELHOR ROTEIRO - Hearat Shulayim, de Joseph Cedar

CÂMERA DE OURO
- Las Acacias, de Pablo Giorgelli

UM CERTO OLHAR

PRÊMIO UM CERTO OLHAR
- Arirang, de Kim Ki-Duk & Stopped on Track, de Andreas Dresen

PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI - Elena, de Andrey Zvyagintsev

MELHOR DIREÇÃO
- Au revoir, de Mohammad Rasoulof

21 de maio de 2011

Cinema: O Caçador de Trolls


Por: Lucas Sá

Filme Norueguês que se manifesta como a tendência do cinema independente no cinema atual, a câmera-personagem. Fiquei com um pé atrás antes de vê-lo, O Caçador de Trolls? Um nome bastante peculiar e no máximo inusitado para um filme de origem norueguesa. De princípio o título me remeteu a mais um trash entre tantos outros, certa nostalgia em relação aos clássicos dos anos 70/80. Mas não é bem assim, o filme se mantém no território do real, que para atribuir com maior impacto esse "real" utiliza a filmagem documental, já tão explorada desde o inovador A Bruxa de Blair.

O diretor André Øvredal se cerca a todo instante de uma mitologia imaginária que no filme se torna cada vez mais verídica e consistente em sua proposta. O número de detalhes e rumores sobre as criaturas são colocados na trama com cuidado e sem se torna alegórico a ponto de se tornar risível, é nesse ponto que o filme se distingue do trash em seu conteúdo, que no caso, é trazer risos fáceis através das tragédias negras dos personagens. O Caçador de Trolls acredita em sua própria criação, se leva a sério, e a medida que essa "religião" dos trolls cresce no roteiro o espectador se convence do absurdo da história, digo isso por minha experiência com o filme, em nenhum momento duvidei da existência dessas criaturas nojentas e grotescas, me questionava é claro, mas nunca desaprovando as criaturas que só aparecem durante a noite. O filme se apega a inúmeras burocracias para manter a origem da existência desses monstros, criando institutos fantasmas, a EST (Instituto de Segurança de Troll), que impedem que outros "humanos" descubram os trolls na mata, esses enganam os jornalistas e a mídia por meio de ursos mortos ou furacões inesperados. A mentira da política controlando a mentira da mídia, que essa por sua vez, nos controla. Os detalhes que mencionam são fundamentais para sustentar a veracidade das criaturas, o roteiro do próprio diretor, André Øvredal, se enriquece na medida em que implementam nas ações a forma de convívio ou de combate das criaturas, se mantendo bastante aliado a ciência e mitologia dos seres, como na falta de vitamina D no sangue dos trolls, por isso, ao entrarem em contato com os raios ultravioletas ou se calcificam ou explodem por meio de gases que se formam em seus intestinos. Outro fato relevante é o cuidado para com os "monstros" em relação aos seus nomes científico e hábitos selvagens. A divisão entre espécies podem ser classificadas como dois tipos, os trolls da montanha e os da floresta e os subgrupos são chamados de Raglefanten, Tusseladd, Rimtusse, Dovregubben e Harding. Todas essas informações são emitidas pelo o único caçador de Trolls da Noruega, Hans, ao qual os documentaristas o consideram como um herói nacional. A figura de Hans (Otto Jespersen) é séria e robusta, talvez seja um dos fatos de nós, espectadores, confiarmos nele e nas suas histórias e informações, como a sua descrição sobre um troll de três cabeças que acabaram de combater, ele afirma em um bar que somente uma cabeça pensa, a do meio, as outras nascem ao longo de sua vida, que varia de 1000 a 1500 anos, essas pseudo-cabeças são uma forma de se defender dos predadores e chamar a atenção das fêmeas para a cria, ou seja, que merda é essa?
Mas não é só essas informações que insistem pela a idéia de realidade das imagens filmadas. A câmera-personagem, como disse, é uma tendência forte do novo cinema independente, sobretudo no gênero do horror. André Øvredal foi esperto na escolha dessa forma de narrativa, o baixo orçamento, que é um grande problema nas produções mais experimentais, foi a fonte determinante para fixação desse estilo de contar histórias no cinema. Em O Caçador de Trolls a narrativa "Blair" é o grande ventríloquo do longa, que ao mesmo tempo que permite uma maior economia de gastos ajuda a intensificar o tom realista da obra, unindo assim, o útil ao agradável, o mais barato ao mais real. O longa se assemelha em alguns momentos a temática/forma de Cloverfield, de Matt Reeves, no assunto de criaturas gigantescas e arrebatadoras, mas a experiência proposta por André Øvredal é menos caótica e urbana, o filme é até mesmo desapegado a isso, é mais naturalista e contemplador. Mesmo com a câmera tremula na mão de seu operador, o longa consegue captar belas imagens da paisagem montanhosa da Noruega, a câmera do alto das montanhas filmando as cachoeiras e as rochas chega a ser mais impressionantes do que as criaturas em si, um filme rústico, porém bonito. É interessante, no sentido mais técnico, ver a relação dos documentaristas com os seus equipamentos. A garota do "boom" está sempre grudada com sua ferramenta e atenta aos ruídos, o câmera sempre fica atrás do visor, mal o vemos ou ouvimos sua voz, e o repórter/diretor está sempre a frente liderando o grupo, a clássica hierarquia do cinema. Em uma das cenas o câmera chega até a "bater o branco" em uma folha branca para captar a cor natural do ambiente, mas isso é aspecto mais acessível a quem faz cinema ou vídeo como profissional, fica isso caso algum operador de câmera esteja lendo este singelo artigo.

O tom do filme é de suspeita. O clima na floresta não chega a ser agonizante, mas causa certo incômodo claustrofóbico. Noruega, gelada e úmida. As belas imagens filmadas pela câmera, já comentadas, nos dão a sensação de solidão ao meio de rochas montanhosas e de árvores gigantes, a criatura em si não é assustadora, a sua ausência gera mais impacto do que sua forma física, são monstros bobos e idiotas, chegam a ser atrapalhados, como o próprio caçador Hans afirma. O Caçador de Trolls não se apega ao clima de horror como em filmes do mesmo gênero, se é que posso chamar esse estilo de filmagem de gênero, como em Rec ou O Último Exorcismo, a tendência de André Øvredal vai mais pelo realismo psicológico do irreal do que o "medo" propriamente dito, ele quer que nós acreditemos nesse universo, e consegue. Posso ver certa semelhança entre O Caçador de Trolls e o filme Por Trás da Mascara, onde a intenção se realça mais na experiência do cinema como alcance de fatos reais do que para com o susto ou a agonia macabra.

O que me deixou mais intrigado na relação entre trolls e humanos foi a revolta das criaturas em relação aos cristãos. Hans pergunta logo de princípio se tem algum membro da equipe de filmagem que é cristão, todos respondem não. Os trolls se tornam raivosos com pessoas cristãs perto deles, mas como um troll saberia se um humano é cristão ou não? Meio absurda essa abordagem, mas pode ser levado como questões mais subjetivas da obra. Hans na sequência final chega a atrair um enorme troll a sua armadilha através de músicas religiosas em alto volume. Afinal qual seriam as intenções de André Øvredal a colocar esse questionamento no filme? Bom, eu não sei dizer, mas sei que isso pode ser visto como uma forma de ironia ao que o homem acredita ou não. Testando a fé (Deus) em relação as criaturas que existem só no filme e nos livros, os trolls. "Acredito em trolls, mas não em Deus!". Essa ironia realista prevalece até o fim dos créditos finais, com a frase:

" NENHUM TROLL FOI FERIDO DURANTE . AS FILMAGENS "

19 de maio de 2011

As Mulheres de Lars Von Trier...

Por: Lucas Sá

As mulheres de Lars Von Trier.... Mulheres carregadas de inocências e punidas por isso, ás vezes, se tornam ferozes, no sentido mais carnal da palavra. Seus corpos e razões são falsas em todas as ações, são bipolares, escondem seus instintos originais utilizando suas bondades aparentes. Elas matam... Elas torturam... Elas são estupradas... Elas morrem. como diria Charlotte Gainsbourg em Anticristo:

"Uma mulher que chora, é uma mulher traiçoeira.
Falsa nas pernas, falsa nas coxas.
Falsa nos peitos, dentes, cabelos e olhos.
Abrece-me! Abrece-me!"


A APAI.XON.ADA - Bess McNeill (Emily Watson) em Ondas Do Destino (1996)
A IDIOTA - Karen (Bodil Jørgensen) em Os Idiotas (1998)
A CEGA - Selma Jezkova (Bjork) em Dançando no Escuro (2000)A GANGSTER - Grace Mulligan (Nicole Kidman) em Dogville (2003)A ABOLICIONISTA - Grace Mulligan (Bryce Dallas Howard) em Manderlay (2005)A FEMINICIDA - Ela (Charlotte Gainsbourg) em Anticristo (2009)A NOIVA (?) - Justine (Kirsten Dunst) em Melancolia (2011)

18 de maio de 2011

Cinema: Kinatay (Execução)


Por: Lucas Sá

Tive meu primeiro contato com Brillante Mendoza com algumas postagens de blogs sobre o filme O Massagista, confesso que fiquei meio cabreiro em relação ao cinema de Mendoza. É um cinema carnal que rasteja pelas ruas empoeiradas e movimentadas da Indonésia/Filipinas, sua cidade natal, um país pobre que ainda assim consegue manter um cinema vivo e criativo.

Mendoza em primeiro lugar vê o cinema como uma exploração, digo no sentido mais amplo da palavra. Exploração da imagem, da pobreza, do calor, da violência, dos corpos desnudos, das vaginas, dos pênis, e até mesmo do próprio cinema. Kinatay é o seu filme que permite uma reação do espectador diferenciada de seus trabalhos anteriores, é um filme brutal por si. Suas obras anteriores estão focadas na sexualidade da imagem, como disse, a exploração seria o da nudez e do ato sexual, tema persistente na sua filmografia. O Massagista é calcado em uma casa de massagem que funciona como um prostíbulo de jovens do sexo masculino, tendo estes jovens casos homossexuais com os "pagantes" pela a "massagem". O filme foi se inclinando para vários festivais do seguimento de entretenimento pornográfico e também para alguns festivais voltados para a temática homossexual. Seu filme de maior destaque em seguida é Serbis, que conta a história de uma família tradicional que para seu sustento mantém um cinema pornô de gerações no centro da cidade, em seu interior e corredores são vividos cenas de acasalamento entre humanos e brigas de família, um filme saturado de cores e sexo. Esse início de carreira de Mendoza é de certa forma bizarra, muitos o colocaram como um cineasta exibicionista e sem futuro, que utiliza o explicito para chocar, oras não é essa a intenção? Todo filme tem suas intenções, os de terror são os de sentir medo, os de comédia são para rir. Mas o que fez Mendonza se tornar reconhecido nos grandes festivais? A crueza das imagens e a questão do "cinema-verdade" são fundamentais nas obras de Mendoza, são um retrato preciso das condições de um país degradado através das lentes pervertidas de um diretor voyeurístico. Foi com Tirador e Serbis que Mendoza começou a ser reconhecido nos majestosos festivais, em Berlim com Tirador e com Serbis foi indicado para a Palma de Oura em Cannes. A exibição de Serbis em Cannes foi massacradora, os críticos e espectadores vaiaram o filme e deram notas em jornais e sites que o filme era um dos piores da competição e que não merecia ser selecionado para a honra do festival.Bom, um ano depois com seu filme Kinatay, Mendonza está novamente em Cannes, o que foi motivo de novas chacotas. Kinatay dessa vez sai como um grande e cruel filme, e recebeu nada mais do que o prêmio de melhor diretor pelo festival. Minha percepção sobre Mendoza era contida em pensar como, "ah! É o cara que faz filme de gente transando no cinema pornô", um erro infantil meu. Kinatay é um filme fundamental para se entender as intenções de Mendoza, a forma como ele filma seu país e seu povo é de uma paixão verdadeira. Sua câmera tremula e marginal se apega ao realismo condicional dos personagens e de seu espaço grotesco em que vivem. Nesse sentido, Mendoza se assemelha ao o cinema novo brasileiro, com sua agressividade visual, em citações como: "Um cinema sobre um país subdesenvolvido filmado de forma subdesenvolvida". Essa frase sintetiza precisamente o estilo de filmagem de Mendoza, que consiste em revelar as problemáticas sociais da forma mais ordinária e selvagem possível, sempre tendo como primeiros planos personagens imersos em um universo erótico e violento. Kinatay, assim como Tirador, são filmes que abordam a violência social como análise de uma sociedade calcada na corrupção cada vez mais natural e aceitável.

Um jovem (Peping) que acaba de se casar, se envolve involuntariamente em um crime contra uma prostituta chamada Madonna. Essa é a linha cronológica do longa, nada muito afetado, o seu roteiro é simples e direto, assim como suas ações e cenas. Seu roteiro pode até mesmo se assemelhar aos chamados "Revenge Movies" e Sexploitation, como no já comentado A Fonte da Donzela de Bergman, e Thriller - Um Filme Cruel. A diferença é que a parte da vingança é anulada e o ponto de vista do filme é através dos policiais assassinos. A trama é minimalista, reduzindo muitas das técnicas básicas de roteiros, como as reviravoltas e diálogos explicativos. O diálogo em Kinatay é uma rica fonte dos dramas e medos do personagem central, o seu uso é raro em determinado momento do filme, o diálogo é dosado e controlado a partir do seu envolvimento com o crime. O silêncio é precioso para Mendoza, a medida que só se ouvi os ruídos o filme cresce como um suspense psicológico poderoso que mantém o espectador tenso nas ações futuras, onde o filme acontece de fato, assim como em A Fonte da Donzela. A cena chave de preparação das ações é a longa e interessante viagem de Peping até o local do crime, é uma cena extensa que foca no rosto e nos olhares dos membros internos do carro, o close-up reina, as expressões de terror e de dúvidas de Peping seguem por todo o trajeto, ele está envolvido em algo irreversível a tal altura, o medo e o silêncio crescem a medida que o carro se aproxima de sua parada final, a morte. Uma cena que de início se revela como irrelevante, mas que com sua persistência temporal acaba se estendendo entre variadas análises do comportamento psicológico e facial de cada pessoa envolvida no ato.

Logo em seguida da cena do "carro da morte" é aonde o filme começa a se direcionar a um rumo mais forte e cruel. Desde o seu início se permite associá-lo apenas como um drama familiar, mas vai se desenvolvendo a medida que o carro anda, em um monstro, se aproximando do gênero do horror físico. O local, uma casa abandona longe da cidade. A Refém, uma prostituta. A causa, quilos de drogas que não foram pagos. A punição, sua morte. Peping que se pergunta a todo instante, mesmo sem ouvirmos sua voz, o que poderia fazer ou não fazer para fugir ou ajudar essa mulher? Ele se controla em suas atitudes, não pode demonstrar nenhum sentimento extravagante. Madonna está amarrada na cama, é espancada, estuprada e morta. A violência é a fonte da inversão do filme, as cenas do esquartejamento do corpo de Madonna são extremamente realistas e incomodam como nenhum outro filme de horror. Nunca tinha me deparado com tanto controle do filme ao ponto de me ver horrorizado com essas cenas banhadas a sangue, nem O Albergue, O Massacre da Serra Elétrica ou Ichi - O Assassino, me fizeram sentir esse pânico, algo parecido com o que pude experimentar com o filme japonês Guinea Pig - Devil's Experiment. Talvez em Kinatay essa violência tenha se tornado mais colossal devido a essa troca de tom inesperada que o carro propõem, nos avisando que algo de ruim irá acontecer de forma repentina.Aspectos sociais e universais são expostos nesta obra de Mendonza. O jornal e os noticiários televisivos são os alvos em Kinatay, todo seu alvoroço por notícias catastróficas é visto como uma sensação de diversão ou até mesmo lazer passageiro por parte da população filipina/indonesiana. Quando a família de Peping está se direcionando ao cartório para o seu casamento, um homem é visto em cima de uma alta placa publicitária ameaçando se jogar, em sua volta tem vários repórteres e câmeras, mas antes disso ouvimos esse mesmo acontecimentos em um noticiário da rádio, dentro de um ônibus. A mãe do garoto suicida diz, "Meu filho você está em todos os canais! Desça!". Então Mendoza conclui sua crítica nas cenas finais do filme, enquanto os assassinos espalham os pedaços do corpo estraçalhado de Madonna, durante a cena se fala: "Primeira página amanhã! Outra vez!" E jogam um braço pela janela. Na manhã do mesmo dia, ainda amanhecendo, vários moradores e um repórter estão em volta da cabeça de Madonna em um lixão, do lixão a cena é cortada para Peping entrando em um táxi, o que ouvimos no rádio do táxi é: "Para quem só agora se juntou a nós, foi encontrada outra cabeça cortada em Quezon City. Há algum tempo tornou-se habitual a descoberta de parte de corpos. Recentemente, foi encontrado um braço cortado em Calaocan. Está gangue é terrível, cujas vítimas são cortadas aos bocados..." Já é habitual e veloz.

É interessante, no sentido técnico, que o filme foi filmado com a câmera digital ARRIFLEX D-21, que se aproxima da imagem da película fílmica. O resultado é incrível, só olhos bem apurados com as filmagens percebem essa diferença do digital da Arriflex em relação ao método tradicional do cinema, a película. A economia que a câmera proporciona se reflete no orçamento do longa, que se aproxima de 800 mil dólares, segundo o site IMDB. Uma ótima filmadora! O cinema se tornando cada vez mais digital, e prático!