18 de abril de 2011

Cinema: A Atenção - O kino luneta

Por: Lucas Sá

O foco central em certas referências é um sentido incorporado que permite que o espectador tenha uma relação "única" com o cinema. Munsterberg, o maior pensador da atenção no cinema, defende a idéia de que a atenção se relaciona individualmente com cada meio. O teatro e o cinema sempre foram contestados entre si, tanto por suas diferenças quanto por suas proximidades. O teatro, no início do amadurecimento do cinema, via essa nova arte como inferior e questionava suas técnicas e artifícios de ilusão, que alienavam o olhar do público em imagens. Munsterberg então, se permitiu defender as entranhas das diferenças entre cinema e teatro, o qual se dedicou excessivamente, praticando certa rivalidade intelectual, algo como: Teatro X Cinema. Dentre essas diferenças, o conceito de "atenção" é um dos reinantes.

A atenção é um reflexo subjetivo do homem que o permite criar um significado ao mundo que o cerca, o exterior. Sua ausência seria danosa ao individualismo de personalidade, algo relacionado ao embasamento do foco mental, ou seja, um vazio rebuscado. O teatro, que tem sua ação em um palco, se demostra amplo, no sentido de espaço entre o olho e a ação. Essa amplitude da área ficcional provoca uma sensação menos intensa de atenção, pois não permite perceber certos detalhes ou até mesmo expressões faciais, que são decisivas para englobar a platéia no contexto emocional. Um personagem teatral que recebe a notícia que seu filho morreu na escola com um tiro na cabeça por um assassino, irá fazer primeiramente uma expressão de tristeza/surpresa em sua face, que introduzirá a tendência ao choro. Espectadores que estiverem, talvez, da quarta fila a diante no teatro, provavelmente não irão perceber a primeira mudança facial da atriz/ator, consequentemente, essa cena, que era para transpor uma sensação de grande impacto na platéia, não terá a mesma intensidade, já que grande parte das pessoas não pôde esforça a atenção focal para a ação, devido a uma questão espacial. É devido a isso que os atores no teatro se preparam fisicamente e oralmente, já que sua voz e suas expressões exageradas precisam ser ao máximo o ponto mor da visão. O cinema, em contrapartida, através de meios técnicos, como a montagem e o movimento de câmera, permite que essa relação de atenção entre o espectador e a ação seja mais dinâmica. A montagem, inquestionavelmente, permite uma maior mobilidade de intervenção na imagem, isso faz com que planos e sequências sejam organizados para se submeterem a uma reação imediata do espectador, ou seja, sua atenção sensibilizada para uma imagem pré-moldada. O plano detalhe e o primeiríssimo plano, são outros meios de se manipular a atenção do público, pois através do movimento ou do zoom da câmera a um objeto, essa imagem se tornará mais perceptível ao olho humano, o que antes era precário no teatro. Fato que incorpora o cinema, mais do que o teatro, a um meio suscetível a aprovação de um sentimento intenso e transparente, que tanto Edgar Morin defende em suas teorias.Munsterberg, em seus estudos, também afirma que a atenção pode ser desviada em duas vertentes teóricas. A atenção voluntária e a involuntária. “A atenção é voluntária quando nos acercamos das impressões com uma idéia preconcebida de onde queremos colocar foco..." (A Experiência do Cinema, p.28). Essa premissa parte da noção de que o homem tem a vontade ou desejo de observar o exterior a partir de vontades próprias, tornando essa variação da atenção intimista e específica. Já a atenção involuntária sofre uma reversão ideológica, pois seu foco se revela de forma mais exterior e supérflua. O involuntário é mais generalizado e banal, é natural do homem, se assemelhando a reflexos primitivos em descontrole. Desde sempre o marketing atual se apegou a esse tipo de atenção, que busca o espetáculo, como já dizia Guy Debord em seu livro, A Sociedade do Espetáculo. Sons espalhafatosos, luzes neon piscando e brilhos exuberantes fazem parte desse involuntarismo focal. Talvez este seja um dos motivos do sucesso das superproduções Hollywoodianas, seus efeitos digitais e sonoros possibilitam análises menos rígidas. Sendo assim, filmes como, Star Wars e Jurassic Park, foram sucesso de bilheteria, pois provocam um estado de imparcialidade metal no espectador.

Estabelecendo uma posição mais igualitária entre esses dois desvios da atenção. Munsterberg, afirma que durante o dia-a-dia a atenção voluntária e involuntária permanecem sempre juntas, mas é nesse contexto que se gera outro questionamento irreverente:


"Não seria possível dizer que se eliminou da esfera da arte a atenção voluntária e que a platéia está necessariamente atrelada a uma atenção que recebe todas as deixas da própria obra dearte e portanto é involuntária?" (A Experiência do Cinema, p. 29)

15 de abril de 2011

Cinema: A Memória e a Imaginação - o espectador como razão ficcional

Por: Lucas Sá

Idéias que permeiam no espectador durante a exibição do filme, que são gerados por meio da atenção, tanto ficcional quanto pessoal, são fundamentais para o complemento racional da obra. A fonte principal desse fluxo de idéias constantes é a memória. O cinema é entre os meios, o que mais sabe utilizar esse subconsciente do antepassado como forma de enriquecimento e melhor aproveito da narrativa. A divisão em cena nos filmes é crucial para o melhor acabamento em relação a educação da memória perante a imagem em movimento. Uma cena isolada não se comporta em um sentido completo, é apenas uma imagem solitária. São as sucessões gradativas dessas cenas que irão afirmar a narrativa, ou seja, a segunda ou terceira cena de um filme sempre irá necessitar da primeira ou da cena anterior, pois a captação do sentido dessa cena necessita de um conhecimento anterior, vista no passado fílmico da obra que permanece na consciência, sendo assim, a memória é o principal motor para esse raciocínio temporal e lógico. O “cutback”, ou flashback, é outra maneira de atuação da memória fílmica. Relembrar cenas do passado do personagem é uma escolha de se desenvolver o roteiro, sendo esse passado revelador, necessário para o complemento do enredo, que inevitavelmente ativara a memória para linkar o passado com a ação presente. Como quando os sacerdotes da igreja lambem os dedos que folhearam as páginas envenenadas do livro Poética, de Aristóteles, e em seguida por meio da montagem, durante a projeção, essas mesmas cenas, dos sacerdotes lambendo o dedo para passar as folhas do livro, serão reinseridas para intensificar o movimento e a ação causal das mortes, no filme O Nome da Rosa.
A soma do plano detalhe (ênfase em algo) mais o comportamento da memória é também um importante meio de se desenvolver o roteiro. Quando um ator pega algum objeto e este objeto é filmado bem próximo da objetiva, o público, quase que automaticamente guarda essa cena na consciência, sendo que esse objeto provavelmente será importante para o fluxo narrativo do roteiro. Quando este objeto, durante a projeção, é usado, o público de imediato se recorda dele na cena em que foi utilizado o plano detalhe. Quando um aventureiro pega seu canivete (filmado em plano detalhe), e sai para escalar montanhas no deserto, mas seu braço durante a escalada acaba ficando preso a uma rocha. Então, o que ele poderá fazer? Pegar a faca que havia guardado de antemão em casa, o que irá servir para cortar seu próprio braço, no filme 127 horas, de Danny Boyle. Esse é um exemplo clássico do uso da memória no cinema, sendo que essa imagem anterior, um aventureiro pegando uma faca, irá por osmose adentra na consciência e permanecerá guardada lá, até o uso posterior do mesmo objeto.

A imaginação é outro aspecto que o cinema permite que o homem tire suas próprias conclusões visuais, sendo que essas conclusões serão convertidas da imagem para a razão. Algo como "deixado no ar", que se revela quase como um suspense visual. A transição de tempo em rápidos cortes é uma das técnicas que auxiliam o estopim dessa imaginação interior. Seguindo esta técnica, temos o filme 2001 – Uma odisséia no espaço, dirigido por Stanley Kubrick. Em 2001, há um prólogo de introdução sobre a origem dos homens, nós como macacos primitivos, seguindo a teoria evolucionista de Darwin. Em uma dessas cenas, um macaco (homem) começa a debater um pedaço de osso animal sobre outros ossos, esses começam a se espalhar, mas um, com a batida, é lançado para o alto que em seguida, por meio da montagem, ocorre um corte seco deste osso no ar para o sistema planetário com uma enorme nave voando pelo o universo, ou seja, Kubrick, através de um único corte de cena, avançou milhões de anos, uma cena belíssima. Caso o espectador não tivesse um conhecimento cientifico e histórico passado, essa cena não seria nada mais do que um corte sem sentido, atemporal. O mesmo ocorre com o "espaço off", onde ações ocorrem fora da captação da objetiva, tendo toda a dramaticidade subtendida, principalmente por meio do som. Como ocorre no filme Baixio das Bestas, de Cláudio Assis, na cena onde a personagem de Dira Paes é estuprada com um pedaço de madeira ponte-aguda. Mas o que ouvimos e vemos durante a cena é apenas seus gritos e sua silhueta em sombras, em uma tela de um cinema abandonado.

Maurice Merleau-Ponty se assemelhando as idéias de Munsterberg, afirma que o cinema precisa do espectador para ser percebido e sentido, pois este cinema necessita de um espectador capaz de entender suas mensagens subliminares e visuais. Para isso, o público deve ter um conhecimento pré-determinado, uma inteligência interior e anterior. Assim, o cinema vai além da técnica (montagem, filmagem, narrativa...), ou seja, vai também do espectador (imaginação, memória, percepção). Passando tanto por seu aspecto interior (filme + técnica) quanto pelo seu exterior (espectador). Logo, um cinema sem espectador, não seria nada mais do que imagens móveis, o que tornaria o cinema, apenas uma arte incompreensível.

Cinema: Realidade e Dominação

Por: Lucas Sá

28 de dezembro 1895, Paris, no Grand Café. Essa é a data da suposta primeira exibição de um filme em público. Exibição esta que foi idealizada pelos Irmãos Lumière, os grandes disseminadores do cinematógrafo. Estes mesmos "criadores" da máquina de fazer filmes, viam essa nova parafernália apenas como um equipamento científico que logo entraria no limbo do esquecimento, assim como tantas outras invenções desse período tecnológico da humanidade, a Revolução Industrial. Mas este fato acaba encontrando em uma pessoa a sua fuga. O mágico Georges Meliès, que esteve presente na primeira exibição dos Lumières, percebe as opções que este brinquedo fotográfico permite, então com seu ego de artista performático acaba adquirindo essa máquina. Meliès, sobretudo, foi o primeiro a ver o cinema como fonte de entretenimento, isso faz com que a visão da "máquina-filme" como objeto de observação científica seja revista, pois o cinema feito por Meliès vai muito além de ligar e desligar a câmera sem se dar conta das possibilidades que esta captação permite, o que acontecia com frequência no cinema de mostragem. Talvez sem Meliès o cinema não se desenvolveria e se comportaria como o conhecemos, mesmo este mágico ainda se emoldurando por alguns teóricos no chamado: "Primeiro Cinema". Filmes como, Viagem à Lua, do próprio Meliès, nos permite ensaiar sobre essa nova forma de se fazer cinema, a trucagem, proposta pela ilusão.

Essa introdução serve como base para o que discutirei no momento. O cinema como representação da realidade. Os desejosos realizadores caem de joelhos sobre este assunto, que se instalou como parasita em proporções crescentes. Logo, o próprio cinema se impõe como produção do real. Esta busca pela realidade através das artes vem se fortificando desde os tempos da burguesia renascentista, sendo os precursores de vários aparatos que serviram de alicerce para o desenvolvimento do cinema, como a fotografia. Mas a fotografia, mesmo sendo um retrato quase que fiel do real, não tinha um dos elementos característicos do "real", no caso, o movimento. Essa conquista proposta pelo o cinema é o que o torna mais próximo deste antigo desejo burguês, mas essa realidade sugerida pelo filme não deve ser vista como uma imagem concreta retirada do meio "real", mas sim como uma ilusão do real. Essa áurea de ilusão se fortalece na medida em que analisamos os primórdios dessa arte. Se ligarmos o primeiro visionário do cinema, Meliés - o mágico, com essa idéia de ilusão, percebe-se que desde o seu estopim essa partícula é presente, como nas trucagens de ilusão ótica nos filmes de Meliés. Até mesmo na forma de como se ver um filme pode ser notada essa questão. O pensador, Jean-Claude Bernardet, em seu livro "O que é cinema" afirma que:


"(...) Nos dizem que o cinema reproduz o movimento da vida. Mas sabemos que não há movimento na imagem cinematográfica. O movimento cinematográfico é uma ilusão, é um brinquedo ótico. A imagem que vemos na tela é imóvel. A impressão de movimento nasce do seguinte: "fotografa-se" uma figura em movimento com intervalos de tempo muito curtos entre cada "fotografia" (=fotogramas). São vinte e quatro fotogramas por segundo que, depois são projetados neste mesmo ritmo... O que nos dá a impressão de movimento contínuo..." (BERNARDET,1980 p. 18).


Então, conclui-se que desde o processo de projeção ou até mesmo na montagem paralela proposta por D. W. Griffith o cinema é uma arte ilusória, que nos permite adentrar em um estado de quase sonho. Mas é essa "impressão de realidade", como chama Bernardet, que faz com que o espectador se sinta conectado com o cinema, sendo este provavelmente um dos motivos de seu grande sucesso.

O almejado desejo antigo de realismo está sempre em uma ligação pertinente com a tecnologia, sobretudo no cinema. Essa união, cinema + tecnologia, permitiu não só a invenção do cinematógrafo por meio de experimentos anteriores, como as analises científicas de movimentos naturais por meio de fotos dos cientistas Muybridge e Marey, mas também na criação de artifícios que em combinação com a imagem em movimento proporcionam uma aproximação mais concreta em relação a este espetáculo do real. Estamos falando: do som e da cor. Anexos que são fundamentais para acelerar a ilusão da imagem. Outro recurso, mais artificial que os já citados, é o 3D, que desde 2009 sofreu uma expansão em termos de aperfeiçoamento e de uso. Mas poucos sabem que este já é um recurso demasiado antigo, sendo usado até mesmo em 1955 em Disque M para Matar de Alfred Hitchcock. Essa terceira dimensão provoca um visual que a burguesia renascentista (Leonardo da Vinci) almejava em dominar, a perspectiva, ou seja, a idéia de profundidade de campo, que já se notava na objetiva (lente) das câmeras, mas de forma menos potencial. A perspectiva permite então a libertação do olhar, o horizonte em camadas e profundidades falsas.

"Em qualquer forma de arte, criamos uma ilusão para que o público olhe para a realidade por intermédio de olho particular. A câmera mente o tempo todo.Ela mente 24 vezes por segundo" - Brian De Palma


Além desses apêndices, o cinema encontrou nos próprios diretores e pensadores da área, o seu "estilo" realista. As escolas e manifestos são fundamentais para se compreender este anseio do real no cinema moderno. O Neo-realismo italiano, com suas formas simplistas de se fazer cinema, foi a escola que mais se dedicou e contribuiu com a naturalidade dessa arte. Cenários não ficcionais, atores não profissionais, possibilidade de improviso e roteiros menos rígidos, fizeram com que essa escola permitisse um cinema menos técnico, em contrapartida, mais cru e documental, aproximando o povo italiano ao sentimento de pós-guerra, de degradação. Essa escola também é a maior influenciadora do Cinema Novo no Brasil, que aproveita essa "estética do real" e o rastro de revolta deixado por ela, para revelar de maneira abrupta e feroz os principais problemas sociais e econômicos do povo brasileiro. Tendo como figura icônica: Glauber Rocha. O manifesto DOGMA 95, criado em 1998 por Lars Von Trier e Thomas Vinterberg, com os filmes, Festa de Família e Os Idiotas, é dentre as escolas e movimentos realistas o mais atual deles. O manifesto se baseia em regras extremamente rígidas, tanto é, que os filmes só podem ser reconhecidos pelo manifesto se respeitarem todas as regras. Dentre elas: usar sempre câmera na mão, cenários naturais e não inserção de trilha sonora (a não ser que seja do próprio ambiente). Mesmo já defasado, o Dogma 95 injetou sua linguagem restritiva e rude em jovens diretores, mas de forma menos específica, tais como nos filmes: Para Sempre Lilya (Lukas Moodysson, 2003) e Adeus, Falkenberg (Jesper Ganslandt, 2006).

"Num filme o que importa não é a realidade, mas
o que dela possa extrair a imaginação." - Charlie Chaplin

13 de abril de 2011

Literatura e Cinema - A Arte do EXORCISMO!

Por: Airton Rener

Influenciado pelos mitos, e claro, pela internet acabei me interessando em fazer a leitura do livro "O Exorci s ta", o que, ao contrário do que pensei, não foi arrependimento. O livro é um romance de Willian Peter Blatty publicado originalmente em 1971 e supostamente inspirado em um caso real de exorci s mo de um garoto com 13 anos de idade registrado no jornal Washington Post do qual era leitura diária do autor.

Não é por nada que a obra se tornou clássico da literatura estrangeira, publicado na década de 70 onde a sociedade era mais conservadora e supersticiosa do que os dias de hoje. Ler um livro que conta uma história de um caso de possessão demoníaca era uma coisa do outro mundo; ou você era muito cético ou você tinha que ser muito corajoso para ler, afinal, quem não gosta de sentir e superar seus medos?

Falando em medo, livros que causam medo de verdade são poucos, até porque é difícil de escrever uma obra que transmita isso com facilidade, talvez só mesmo o Willian Peter, afinal foi através de sua incrível criatividade que ele conseguiu fazer muita gente ficar sem dormir.

Fazendo uma generalização sobre o terror no livro. Este não está associado diretamente na hora da leitura, até porque são poucas as passagens assustadoras, o terror está ligado ao psicológico da pessoa, principalmente nas horas de vago mental. Você imagina as cenas relatadas com detalhes, e então você fica com medo; ou de ser possuído, ou de ficar no estado degradante de Regan, ou até mesmo de ver demônios por ai. Tentar explicar por qual motivo a maioria das pessoas sentiram tanto medo da obra “O exorcista” é uma tarefa difícil até porque isso é relativo, pois depende do psicológico de cada leitor.

Deixando de lado as perturbações e as superstições que o livro causa. Este nas primeiras paginas já começa com uma proposta inovadora e cativante/repugnante; no índice os capítulos são divididos e nomeados respectivamente em; O começo, À beira do abismo, O abismo, E que meus Rogos Cheguem a Ti. Representando em cada uma delas a gravidade da possessão de Regan e o desespero das pessoas próximas à ela.



A historia no livro, ao contrário do que muitos pensam, é mais complexa do que uma simples possessão demoníaca: Chris é uma linda atriz com sua ascendente carreiracinematográfica, recém separada de seu marido, mora sozinha junta à sua unica filha, Regan, uma garota dócil e "inocente" (ela é a menina que ficará louca ou será possuída). Chris está numa confraternização em sua casa quando inesperadamente algo estranho começa apresentar no comportamento de Regan. Supondo que Regan esteja em crise emocional decorrente da separação de seus pais, Chris leva sua filha ao psicólogo que sem um diagnóstico consistente o encaminha para médicos psiquiatras. É nesse contexto que Willian Peter revela todo seu conhecimento técnico-científico das áreas de psicologia e psiquiatria para "explicar o inexplicável" caso de Regan que só piora a cada dia. Apesar de Chris não acreditar na existência divina, fragilizada e em desespero, ela acaba recorrendo a um padre para fazer o exorcismo. Sem a certeza que Regan esteja possuída, o padre Karras não tem a autorização da Igreja pra fazer o ritual de libertação. É a partir daí que se encontra a complexidade do livro, por um lado cientistas não conseguem diagnosticar a doença de Regan, por outro o padre Karras, representando a Igreja, não tem a certeza de que Regan esteja realmente possuída. Ao mesmo tempo em que Karras investiga o suposto caso de endemoniamento, ele começa a frequentar a casa de Chris para dar força a ela, pois diante da degradação física de sua filha ela se encontra desesperada, abalada psicologicamente. Diferente do filme, no livro o padre é o protagonista. É por esses motivos que afirmo que livro "O exorcista" é experimentalmente um livro mais dramático que assustador.

Um ponto positivo e interessante do livro se encontra como referência no recente filme, O Último Exorcismo, do diretor Daniel Stamm (leia abaixo o trecho). No livro, Willian Peter afirma que a possessão de Regan pode estar associado a um efeito psicológico de auto-sugestão e que uma possível solução para o caso seria fazer um pseudo-exorcismo de Regan. Isso é claramente percebido nas cenas iniciais do O Último Exorcismo de 2010, onde um pastor, não acreditando em possessões demoníacas, decide fazer um documentário de um pseudo-exorcismo de uma jovem que ele acredita estar com distúrbios psicológicos.

"O exorcista" causou tanta polêmica que logo 2 anos depois ganhou uma versão cinematográfica. Estreado em 1973 e dirigido por William Friedkin, o filme segue fielmente a historia do livro, considerado uma das melhores adaptações da historia do cinema e o primeiro filme de terror a ser indicado ao Oscar de melhor filme. Mas mesmo transformando 50% das palavras de um livro em cenários, gestos e expressões, um longa de 120 minutos não permite adaptar com detalhes os outros 50% do livro no roteiro, o que, conseqüentemente, alguns detalhes relevantes passaram despercebidos ou até mesmo omitidos, como na maioria dos casos. Um exemplo disso é o envolvimento do detetive Kindermen na história, no livro ele investiga a morte sobrenatural de Burke Dennings, um amigo de Chris que é diretor do filme da qual ela estava trabalhando. Durante essa investigação Kindermen descobre fatos reveladores sobre rituais satânicos que tem uma ligação com o caso de Regan, sendo a principal suspeita. No filme Kindermen tem sua presença, mas não tanto reveladora quanto no livro, a investigação dele é um ponto-chave para genialidade de Willian Peter, é nesse desenrolar do enredo que o autor descreve sobre satanismo e magias negras. Veja abaixo esse trecho "extraordinário".

Transformando linhas em tela, o filme também tem suas qualidades. Embora a maquiagem de Regan ser mais exagerada do que descrita no livro, em contrapartida, acabou se tornando um ponto estético poderoso, talvez se não fosse a maquiagem, a imagem de Regan possuída não seria um dos ícones mais famoso da historia do cinema, tanto é, que as pessoas se referem a Regan possuída como "O exorcista", sendo que o exorcista é o padre. Mas não só de efeitos visuais que o filme é feito, o ambiente e a história central segue fielmente ao livro o que talvez se não fosse o roteiro do próprio autor poderia ter acontecido algumas distorções como acontece com a maioria dos livros que chegam as telas.

O filme tornou-se um dos mais lucrativos filmes de terror de todos os tempos, arrecadando o equivalente a U$ 402.000.000,00 em todo o mundo. "O exorcista" realmente merece ser um clássico, não por seus números, mas sim por ter reinventado a maneira de se fazer terror e efeitos especiais. Logo depois de seu sucesso, outros filmes abordaram o mesmo tema como A Profecia de 1976 e Terror Em Amityville de 1979, fazendo a década de 70 a época mais promissória do terror na sétima arte. Lembrando que os anos 70 foi marcado por outros clássicos do gênero como: Tubarão (1975), O Massacre da Serra Elétrica (1974), Halloween (1978) e Carrie, A Estranha (1976). Nenhum tão temido quanto"O Exorcista".

Hoje filmes de exorcismo se tornaram um subgênero do gênero terror/horror. Embora banalizados, há filmes de possessões que merecem destaques como O Exorcismo de Emily Rose (2005) e Requiem (2006), por abordarem um famoso caso verídico de Anneliese Michel, uma jovem que acreditava estar possuída por uma legião de demônios na década de 70. Logo depois de sua morte, os padres Ernest Alt e Arnold Renz, responsáveis pelo exorcismo de Anneliese, foram acusados de homicídio por terem permitido que a jovem não se drogasse com os medicamentos de seu tratamento de psicose e esquizofrenia, doenças pelas quais os médicos acreditavam ser a causa dos transtornos de Anne. Os padres se justificaram afirmando que a jovem não estava melhorando com os medicamentos e que o problema de Anneliese não era mental, mas sim, espiritual. Apesar dos padres apresentarem provas consistentes que a jovem estava possuída, os dois foram presos com uma sentença de seis meses. A razão desta vez se sobrepôs a fé.Embora os dois filmes se tratarem do mesmo caso, os dois se divergem na maneira de abordar o tema. Em “O exorcismo de Emily Rose” a historia está centrada nos julgamentos dos padres, onde a oposição entre a fé e ciência é bem enfatizada. O longa tem uma dose perfeita de dramaticidade e suspense, isso acontece pelo ótimo roteiro do filme que não se concentra apenas nas possessões de Emily, mas também nos julgamentos dos padres, onde é através dos relatos de testemunhas e advogados que Jennifer Carpenter interpretando Emily Rose, ganha cena. Já o filme “Requiem” é o mais realista possível, sem exageros e sem apelações visuais, neste filme a ciência e religião ficam em segundo plano, destacando assim, o lado mais pessoal e intimista de Michaela Klingler, interpretada por Sandra Hüller, sua belíssima atuação foi destaque no Festival Internacional de Cinema de Berlim em 2006 ganhando “Urso de Prata” por sua atuação. Você vai encontrar uma critica mais detalhada do filme aqui mesmo no blog, postado há meses atrás por Lucas Sá, clique aqui.

E pra finalizar essa postagem, fique com o clipe Rock it de Gorillaz. Neste clipe você verá uma citação direta de “O exorcista” onde logo no inicio do vídeo é apresentado a estatueta de PAZUZU, o demônio dos ventos na mitologia suméria, demônio do qual Regan foi possuída. Cuidado!!!