28 de abril de 2011

The Rocky Horror Show - Montagem nacional de 1975

Por: Lucas Sá

O grande sucesso de The Rocky Horror Picture Show começou muito antes do seu lançamento nos cinemas Double Feature. Richard O'Brien, a mente insana por trás de tudo isso, foi o responsável por escrever essa aventura bizarra, que de início só tinha intenções de ser um musical teatral fadado ao fracasso. No DVD duplo do filme, Richard O'Brien, que interpreta na adaptação cinematográfica o mordomo ‘’freak’’ Riff Raff, explica melhor as dificuldades do processo de produção da peça, ao qual começou com um público bem raso. Mas o que tornou essa saga científica banhada a sangue ser cultuada por fãs? Provavelmente seja o tom de liberdade que a peça/filme expressa em cada letra de suas músicas, o que incomoda muitos puritanos clássicos que abominaram essa "nova dobrada do tempo" - Time Warp. Oras! Um travesti cantando, "não sonhe que é, seja!", todo molhado com trajes sensuais colado ao corpo não é nada convencional, mas expressa uma ruptura, um sentimento de liberdade, que muitos, mas MUITOS se identificaram, sendo estes marginalizados.

Inúmeras montagens do musical, principalmente com o sucesso do filme, foram sendo montadas em vários países. O Brasil, que passava por um momento de crises sociais e econômicas em 1975, recebe a sua primeira montagem, no mesmo ano do lançamento do filme no Reino Unido, sendo que muitos dizem ter tido sua primeira exibição em uma sessão de Grindhouse, junto com o famoso trash de Sam Raimi, Evil Dead. Está primeira exibição do filme foi um fracasso total, o que preocupou os produtores e o diretor Jim Sharman. Pessoas saíram no meio da exibição por se sentirem incomodadas com tanta escória e blasfêmia. Mas depois de uma ou duas semanas, o filme, que só era exibido em sessões depois da meia-noite, começou a lotar as salas dos cinemas undergrounds, tendo cada vez mais aceitação por um público que se revela aberto a essas mensagens irônicas de sexo e amor.

"Tudo o que quero falar. Não sou capaz. Eu bebi sangue e quero mais! Mais! Mais! Mais! É uma montante que vem, que você tem também. É um corpo que queima. Preciso de alguém! Me toque! Toque! Toque! Toque!
Eu quero ser SUJA! Me abrace, beije e me leve! Criatura da noite!" - Diana Strella como Janet Weiss,
cantando Touch-a Touch-a Touch-a Touch Me, na versão teatral nacional.


A montagem brasileira do musical de Richard O'Brien, foi dirigida por Rubens Corrêa e estreou no Teatro da Praia, no Rio de Janeiro de 1975. Foi um grande estouro! A união de liberdade de expressão com a crise que o país passava foi um dos aspectos desse sucesso, e talvez da própria motivação de Rubens Corrêa por fazer a peça. O elenco, com vários atores respeitáveis como: Wolf Maia no papel de Brad Majors, Diana Strella como Janet Weiss, Eduardo Conde como o "doce travesti" Frank N. Furter, Nildo Parente como o narrador pastelão e Lucélia Santos como Baleira. Além de atores profissionais, a montagem teve a participação do cantor Tom Zé, com o papel que anteriormente foi do autor original (Richard O'Brien), o mordomo macabro Riff Raff. Pela rede, ainda se encontra alguns trechos de jornais falando sobre o espetáculo:

DIANA DE VOLTA AO ROCK NO TEATRO DA PRAIA
"Simplesmente Diana. Fez shows de horror, levou o diabo até Minas, foi estrela dos anos 20, 50 e do ano 2000. E, hoje, de lacinhos cor-de-rosa, estréia em “Rock Horror Show”, no Teatro da Praia, dirigida pro Rubens Correa. E Diana diz isso rindo, com cara de apaixonada, como se Rubens fosse um mito, um santo, um príncipe encantado. “É incrível trabalhar com ele; uma pessoa incapaz de qualquer desrespeito, sem vedetismo, e de uma cumplicidade com o elenco que emociona.”(...) Foi Guilherme Araújo, produtor de Rock Horror Show, quem olhou, gostou e convidou. Diana pasmou: “Sério que vou ganhar dinheiro, cantando e dançando?"

Os músicos Jorge Mautner, Zé Rodrix e Kao Rossman foram responsáveis pela versão em português das músicas da montagem original. Se percebe que teve certas mudanças nos ritmos das músicas, são um pouco mais lentas e menos sugestivas no quesito "sexual", mas nada que deforme as do original, pelo ao contrário, servem como uma variação das música que já tiveram inúmeras sonoridades batida por outras montagens, sobretudo as internacionais. Mautner, Rodrix e Rossman tentaram captar a áurea da trilha primária, aliado a um estilo mais "abrasileirado", tanto no ritmo quanto nas letras. Isso pode ser percebido na música Eu Te Faço Ser Homem (I Can Make You A Man), quando Frank N. Furter (Eduardo Conde) faz seu protótipo musculoso de Frankenstein, chamado Rocky (Acácio Gonçalves). Ele canta: "Ficou esguio, um amor, em boa forma... Com proteínas e vitaminas, com muita carne e ovos crus, aveia, trigo e pão, espinafre e até CUSCUZ! E li um folheto que dizia assim: em apenas setes dias, eu te faço ser homem!". Há também uma inserção de uma música que não tem nas outras montagens, chamada É Só Me Chamar Tudo Bem, que pode ser considera um chote com sanfona, se assemelhando a um sertanejo mais calmo, o que fixa novamente essa idéia cultura do Brasil nas composições.

Em relação as canções em geral, prevaleceu as referências sobre o cinema que são clássicas nas letras do musical, sobretudo os de ficção científica e os filmes B (trash). Música como Science Fiction e Luz na Casa do Frankenstein, são mais do que um tributo ao gênero. Com citações sobre Flash Gordon, Tarântula, Frankenstein e a atriz Fay Wray, do filme King Kong de 1933. Além das músicas o cenário é outro elemento que incorpora essas citações, que não são poucas! No filme elas são bem mais visíveis, como na cena final em que a personagem Magenta (Patricia Quinn) usa um penteado esquizofrênico inspirado no filme A Noiva de Frankenstein.
Estou escrevendo sobre as músicas como se estivesse visto o musical de 1975. Mas não, não vi, ao contrário não teria 18 anos. O que foi salvo dessa montagem foi pouco material, as únicas informações que se tem são rasas, salvo por algumas fotos e recortes de jornais, mas o que se pode ter de mais completo sobre a montagem foi um LP lançado pela Som Livre, e que graças a uma pessoa, que postou as músicas em um site de armazenamento, foi que pude escutar as canções da montagem. O disco contém na capa uma foto expressiva e inusitada de Eduardo Conde interpretando Frank N. Furter, uma bela capa, que pode ser encontrada em algum sebo da vida (por favor, se algum leitor souber onde vende, entre em contato!). Mas o que é um fato indispensável em qualquer montagem de Rocky Horror é deixar de lado as duas músicas mais idolatradas e conhecidas: Time Warp e Sweet Transvestite. Pois é, e justamente no LP faltam essas duas músicas! Um erro fatal! Não sei se foi a distribuidora que não incluiu as faixas no disco ou se os músicos nem fizeram a versão das canções para a peça. Uma dúvida torturante.

Falei de todo o sucesso da peça... Mas não foi bem assim, houve certo desânimo do público em relação ao estilo norte-americano das apresentações iniciais, já que o filme tem tendências explicitas aos filmes B do cinema hollywoodiano, e como fica o espectador que não conhece esses filmes? Ninguém ria ou se mexia, logo tiveram que fazer várias mudanças no elenco original, como a troca de Eduardo Connde, que saiu não pela sua atuação, mas por ter ficado mal, pois estava com sérios problemas de hepatite. Sendo que por indicação de Guilherme Araújo, o diretor chamou o ator baiano conhecido artisticamente como "Edy Star". Este sim foi quem interpretou, pelo ou menos é o que dizem, um verdadeiro FRANK N. FURTER, ao qual ele mesmo o chama de "vampirão". Seu comportamento extravagante e imoral foi motivo de birras internas entre alguns dos outros atores da montagem, que se sentiam ofendidos por sua presença. Edy Star foi responsável por trazer o humor a peça, introduzindo elementos das famosas e escrachadas pornochanchadas, que na época de 70 tinham grande aceitação pelo público bastardo do cinema nacional, por suas imagens apelativas de abuso visual ao corpo nú.


EDY STAR ESCREVEU SOBRE A PEÇA EM SEU BLOG:
O Guilherme me conversou:
- Quero que você transforme essa peça numa chanchada! Eu vi a obra em Londres, o povo adorava... Ria, participava... Aqui, não acontece nada... Ninguém ri, ficam com cara de idiotas. A única pessoa que consegue um riso,é único que não é ator: o Zé Rodrix... Você faça suas loucuras e dê um jeito nisso...
- É, vamos ver o que se pode fazer - respondi - mas não quero problemas com o elenco...
E disse-me ele:

- Eu sei que você vai fazer o melhor...

Na cena no laboratório do Vampirâo (Frank N. Furter), o palco girou enquanto a bateria rufava, me voltei aos poucos para a platéia, abri a enorme capa negra, e de salto alto, espartilho e tapa-sex, uma cabeleira loira imensa e desgrenhada, eu era o Frank Father provocador: ''Oba, oba, eu já me apresentei?'' E logo comecei a colocar meus ''cacos'' e me divertir... Ah meus deuses, fui uma ventania naquele palco... Feri os brios dos pobres de espírito...

Dúvida: será que o ator na capa ou até mesmo a voz do disco é de Eduardo Conde ou Edy Star?

Além desta montagem, teve inúmeras outras aqui no Brasil, mas nenhuma tão polêmica e lembrada como a versão de 1975. Miguel Falabella foi um dos diretores que se propôs a fazer sua própria versão do musical nos anos 80, tendo como atores os alunos do Colégio Andrews no Rio de Janeiro. Entre o elenco estava a ainda adolescente Marisa Monte, que em alguns anos se tornou uma das melhores cantoras de MPB. Em 1995 teve outra montagem da peça de Richard O'Brien, sendo a estréia da atriz Claudia Ohana no teatro.

"E neste pobre planeta restou. Um bando de insetos. De raça humana se chamou.
Perdidos no tempo, no
espaço e na dor... Na dor"

10 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Parabéns pelo especial, amo a peça e o filme mais ainda.

    Então, a música É Só Me Chamar Tudo Bem é na verdade Once in a While, que está sim em todas as versões da peça e inclusive no filme, mas foi retirada porque os produtores a consideravam muito dramatica, e muito polêmica por mostrar o Brad Majors com seus sentimentos depois de cavalgar no Disco Stick no Frank N Furter.

    Creio que vc deve ter visto no Rockumusic.org as versões nacionais, mas o site funciona com pessoas enviando as músicas, então fica mesmo muito dificil se eles enviaram o LP completo, ou só um dos lados, porque algumas canções importantissimas como as já citadas e Rose Tint My World por exemplo não estão nele, e são canções grandes... Talvez não esteja completo mas acho dificil terem tirado da peça...

    De qualquer forma parabéns pela busca, eu vou tentare entrar em contato com Jorge Fernando ou com o Miguel Falabela e ver se eles tem algum material de suas respectivas montagens... Abração...

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  3. Obrigado pela correção R. Maestro!

    É verdade! Me esqueci da música "Once in a While". Hoje de noite quando chegar da faculdade irei arrumar este detalhe!

    Você vai tentar falar com o Jorge Fernando/Miguel Falabela? Se conseguir as músicas dessas outras versões tem como entrar em contato comigo novamente?

    Até.

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  4. Muito bom o post. Sou apaixonado pelo musical. Assisti a montagem do Jorge Fernando com a Claudia Ohana e o Tuca Andrada quando eu morava no Rio. Foi meu primeiro contato com o musical. Lembro do refrão de Time Warp: "deixa o rock rolaaaaaarr.... faça o tempo passaaaaarrrrr"!

    Mas meu maior prazer mesmo foi assistir ao filme nos EUA (estava a trabalho) na noite de halloween, com todo mundo cantando e dançando, muitos fantasiados e muita brincadeira antes de começar (prendas para os novatos, "virgins"). Fantástico.

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  5. Thiago!
    Obrigado!
    Caramba você viu a peça original nacional! Muito bom!!! Era esse o refrão de Time Warp? HAHAHA Parte do mistério foi solucionado!

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  6. Lucas,
    Terá sido a minha masterização?
    O arquivo vem com toda a arte e inclusive os dois selos do LP, lado 1 e 2?
    Inclusive estão marcadas no selo do lado 1 as músicas science fiction, o anel de noivado e luz na casa de Frankenstain. Já peguei este LP de segunda mão.
    Coloquei os créditos dentro das informações dos arquivos mp3.

    Abração!

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  7. Remasterizei com melhor qualidade.
    Enquanto a Som Livre não lança em CD, a gente vai se virando:

    http://www.4shared.com/rar/vOvutUY7/1975-RHS_R_v.html?

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  8. Olá, puxa!!! o q eu assisti foi com o Edy Star, e eu era menor de idade. XD
    Existe o disco??? VocÊ tem?!?!?! ALGUÉM TEM?!?!?!

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  9. Eu tinha o disco, converti para CD, ainda possuo as músicas.

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  10. Eu tinha o disco, converti para CD, ainda possuo as músicas.

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