
A linguagem do cinema nem sempre foi concisa em sua forma. O espectador, que de início era apenas um objeto a frente de uma tela, não tinha aparatos ou bengalas para se segurar na tentativa de compreender tais imagens em movimento. Logo, surge por meio de colaboradores cinematográficos, uma revisão de sua linguagem, que ainda era prematura, como nos chamados “filmes de mostragem”, dos irmãos Lumière, onde estes, apenas "mostravam" ou apontavam a objetiva à ação natural, sem um sentido narrativo implantado. É nesse contexto que surge o desejo de se ter um cinema como arte, sendo Meliés o primeiro a perceber as vantagens alegóricas que a parafernália filmadora era capaz, incorporando suas técnicas de ilusão, que são fundamentais para a imersão do olho, nas filmagens de seus curtas ilusionistas, que nos enganam visualmente a todo o momento.
Assim, o chamado primeiro cinema (1985 - 1915) é rompido por técnicas que elavam o cinema ao seu status de arte, que tanto os burgueses e a escola impressionista desejavam, se distanciando assim, do conceito de que o cinema era um teatro filmado, ao qual muitos o julgavam. Os espectadores do período viam a cena apenas como um ator que ao se deslocar para fora do quadro (tela) estava nos bastidores do teatro, ou seja, o espaço atrás da câmera é uma desconstrução da imagem que se via, além disso, o cinema não tinha cor e nem som, o que fixa essa idéia de desdém por parte dos artistas e público da época deste primeiro cinema. É com Griffith que o cinema toma ares de arte, mesmo tendo realizadores que anterior a ele obtiveram sucesso na experimentação da narrativa, influenciando este desejo, como Edwin Poter, no considerado o primeiro faroeste e filme de perseguição, The Great Train Robbery (1903), e o já citado George Mélies, com o também considera primeiro filme de fantasia, Viagem a Lua (1902). É curioso falar que em ambos já se tem um forte apego a criação de uma linguagem narrativa para o cinema, como em O Grande Roubo do Trem, onde os planos sofrem variações de dentro e fora do trem, ocorrendo uma linearidade do tempo da ação. Sendo um filme de perseguição, estilo que contribuiu preciosamente para o nascimento da linguagem, O Grande Roubo do Trem se apega a um roteiro, como já disse, linear, onde se tem a apresentação dos bandidos, a perseguição do mocinho ou da polícia atrás dele, e por fim seu aprisionamento. É no memento da perseguição em si, que o filme se torna mais ativo em relação a montagem, dando a entender, a partir da sequência de diferentes planos a passagem do tempo e de espaço entre bandido e policial. Foi percebendo esses detalhes que Griffith cria a linguagem do cinema, ou como dizem: a gramática do cinema. Em 1915, Griffith lança seu filme, O Nascimento de uma Nação (1915), que é o precursor dessa "nova" forma de ver o filme, criando a montagem paralela (ou alternada), analítica e de contiguidade. Isso foi capaz de controlar e reeducar a lógica fílmica do espectador, principalmente a partir dos anos 20, que mesmo ainda com os chamados "Explicadores" ou Benjis (no Japão) já conseguiam compreender os sentidos que a câmera proporcionava através da técnica da montagem.

Mas e se essa capa invisível que o cinema persiste em vestir se tornar obrigatória ou enfadonha? Bom, é isso que ocorreu durante os anos 1950, e até hoje, como em Hollywood Land. A linguagem se desenvolveu de forma tão surpreendente que tudo o que era novidade se tornou banal e clichê, proporcionando uma melhor apreensão do espectador que começa a se sentir acomodado ao filme, com um pensamento de estar vendo mais um filme, um igual, um idêntico, um mesmo filme. Tendo apenas algumas alterações, como elenco, cenário ou diretor, mas é o mesmo filme. Logo, a linguagem que antes era inovadora, é apenas mais um detalhe, o que nos faz descartar os grandes clássicos e até mesmo os precursores desta narrativa, já que estes já se tornaram "comuns". Jean-Claude Carrière chega a citar que as primeiras faculdades de cinema ensinavam os alunos uma fórmula ditatorial para se fazer um filme perfeito, como: "Um filme não deve passar de 90 minutos", "o ator nunca deve olhar para a câmera", "um rosto sem expressão ou falas só deve durar apenas 48 quadros de fotogramas" e "nunca se deve colocar a palavra morte no título". Mas claro que isso não durou muito tempo, pois "uma linguagem perfeita é uma linguagem morta". É essa acomodação que gera certo incomodo aos mais experimentais do meio, como os inovadores da escola francesa Nouvelle Vague, que buscavam um desapego a está forma dogmática de se fazer cinema, sendo este classicismo um fator que privilegia a consciência rasa do espectador. Algo que ocorre com frequência na TV.

O aperfeiçoamento

''Há dois níveis de leitura em um filme: o visível e o invisível. O que você põe diante da câmera é o
visível. E se só houver isso, o que você faz é um telefilme. Os verdadeiros filmes, para mim,
são aqueles nos quais há uma espécie de invisível que só pode ser visto através daquele
visível (...)'' - Jean-Luc Godard, em entrevista para o livro Grandes Diretores de Cinema.
visível. E se só houver isso, o que você faz é um telefilme. Os verdadeiros filmes, para mim,
são aqueles nos quais há uma espécie de invisível que só pode ser visto através daquele
visível (...)'' - Jean-Luc Godard, em entrevista para o livro Grandes Diretores de Cinema.
