29 de fevereiro de 2012

MAKING OF - O Membro Decaído, um curta de Lucas Sá


Laura Sá se maquiando para close nos olhos / Teste de ângulo com Isabela Noleto

Agora teste com Laura Sá / Gabriel Coelho ensaiando movimentos

Bartira Sá (Minha mãe!!!) limpando o chão de sangue / Rayssa Baldez com brinquedo de produção

Gabriel Coelho e o dedo da repetição / Laura Sá, Airton Rener e Gabriel Magalhães

Airton Rener com Refrigerante Jesus na boca (e baba) para um plano em close

15 de fevereiro de 2012

Iniciam as filmagens do curta O MEMBRO DECAÍDO


O projeto O Membro Decaído surgiu nas aulas de roteiro ministradas pela professora Cintia Langie, no curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).  

Essa história já permeia em mim há algum tempo, quando meu tio de Salvador, me contou a um ano atrás  sobre um caso de extrema violência urbana. Eu anotei essa história bizarra e a partir daí comecei a criar a minha versão do ocorrido, colocando fatos que me interessavam tanto esteticamente quanto narrativamente, além de ser uma invenção do que poderia ter ocorrido pela mente de outro autor. Não sei se esse fato ocorreu realmente ou se foi só mais uma das mentiras que espalham por ai, mas está “mentira” me interessou muito.   

O roteiro é denso e se estende mais na imagem do que nas palavras, buscando ser explicado por auxilio apenas da imagem, independente do texto ou dos diálogos, sendo guiados, sobretudo, pelas ações. O personagem protagonista é sempre o centro dessas ações, mas ao mesmo tempo ele é o mais distante do meio que o cerca e que o encaminha para ocasiões indesejáveis.   

 O clima das cenas busca uma áurea de tensão e naturalidade tanto dos atores quanto do comportamento da câmera. Esta se mantém como uma observadora das ações, ela não interfere no espaço cênico, só nos encaminha à medida que o personagem central, o homem, se move. Os quadros na maioria das vezes são fixos e nos remetem a uma fotografia de enclausuramento do homem em relação ao espaço urbano, utilizando uma coloração fria contrastada com o laranja e o vermelho, que intensificam a violência gráfica e o clima de fim de tarde.   
A equipe do curta é dividida entre amigos e familiares que já trabalharam comigo em outras produções, como os atores e primos Gabriel Coelho (You Bitch Die!!!), Verbena Sá (Verbena e Limão / You Bitch Die!!!) e Laura Sá, a musa Natasha Sharon de You Bitch Die!!! Já a equipe técnica é formada por Rayssa Baldez, que atuou e produziu o curta-metragem ABATE, Airton Rener (editor do Lucas'Ville) , Gabriel Magalhães, Lucas Kurz (dirigiu e escreveu comigo o Verbena e Limão) e Lucas Mendonça Fernandes, este último é responsável pela montagem e efeitos visuais, grande Mendonça!  

 Já gravamos quase metade das cenas. A montagem e finalização do curta estão previstos para a primeira quinzena de março, pegando o embalo para as inscrições nos festivais.




2 de janeiro de 2012

Os Pênis de A Pele que Habito


O visual de Almodóvar está sempre unindo o objeto e as cores ao roteiro. Em A Pele que Habito, o teor sexual é  a força motriz da trama, atrelada também a vingança. Mas além do ato do coito físico esse elemento está presente, sobretudo, no figurino exacerbado.  

O estilista Jean-Paul Gaultier, que já trabalhou em outros dois filmes de Almodóvar, Kika e Má Educação, é responsável pelo figurino mais expressivo de A Pele que Habito. Assim como em Má Educação, onde realizou o vestido de Zahara com pelos pubianos, Gauldier pensa o figurino atrelando o teor sexual ao tecido. Sua participação é sempre pontual, fabricando apenas algumas peças para o filme, uma ou duas.  Nesta nova produção ele produziu as vestimentas de Vera em sua reabilitação/prisão e a roupa carnavalesca de tigre do irmão tarado, Zeca. E são nessas roupas que se encontram os discretos símbolos fálicos... 

A desconcertante cena da aparição de Zeca vestido de Tigre é a primeira delas. O seu rabo por si só já representa um volume sexual, mas é quando Zeca consegue dominar Vera e tirar sua roupa é que podem ser analisadas mais de perto suas vestimentas, em um plano das roupas jogadas no chão. Reparem na ponta do rabo do "tigrinho".  

Outra cena, mais expositiva, é quando depois da operação total do corpo de Vera o Dr. Robert retira  a mascara de proteção de látex do rosto da jovem. Os prolongamentos da boca ao nariz formam mais um clássico símbolo fálico.  

O objeto em A Pele que Habito também é utilizado como metáfora visual. Na cena em que o Dr. Robert  apresenta como deve ser tratada a vagina intrometida, é utilizada uma espécie de corpo cilíndrico para introduzir no canal e separar os lábios. A cena se estende, e em um plano ela se coloca atrás dos variados tamanhos do objeto cilíndrico, revelando uma profundidade entre o personagem e o objeto, o que seriam grades de uma prisão sexual.  

Eu só digo uma coisa... Essa obsessão por símbolos fálicos de Almodóvar só não é mais interessante do que as de Ken Russel (Lisztomania) e de Robin Hardy (O Homem de Palha).

21 de dezembro de 2011

Crítica de ABATE e YOU BITCH DIE!!! por Cid Nader no III Festival de Cinema da Fronteira


Dia 17 ocorreu o último dia do III Festival de Cinema da Fronteira. O grande vencedor do prêmio de Melhor Filme foi o curta-metragem de animação O Céu no Andar de Baixo, do diretor Leonardo Cata-Preta. O filme é um retrato esquizofrênico e sentimental sobre um ângulo diferente do amor, merecido prêmio. E é nesse contexto que percebo como o cinema de animação vem se fixando na produção nacional, que tinha um espaço limitado em mostra e festivais por uma divisão fixa entre ficção e animação. Curioso saber que além de O Céu no Andar de Baixo outra animação tenha ganhado, no mesmo ano, o prêmio de Melhor Curta em um dos mais prestigiados festivais nacionais, Gramado. Falo de Céu, Inferno e Outras Partes do Corpo, curta do diretor gaúcho Rodrigo John, que também esteve na mostra competitiva, além de premiado por sua trilha sonora, no III Festival de Cinema da Fronteira, em Bagé. (Lista dos curtas premiado aqui). 

Durante o festival foram homenageados o crítico Jean-Claude Bernardet e a musa do cinema marginal Helena Ignez. Dentre os convidados, a atriz Ingra Liberato, que apresentou o festival ao lado de Leonardo Machado. Além de Aurora Miranda Leão, a curadora da mostra competitiva de curtas, e o crítico Cid Nader, que acompanhou e escreveu sobre todos os curtas-metragens do festival em seu site Cinequanon

E são essas críticas que posto a baixo, sobre dois dos meus curtas na mostra competitiva: ABATE e YOU BITCH DIE!!!

ABATE, de Lucas Sá. Brasil (MA), 14 min.
Por: Cid Nader

Uma novidade vinda do Maranhão (talvez indicando mais um polo difusor lá no nosso Nordeste), esse Abate bebe nitidamente da fonte dos filmes pernambucanos para contar uma história de revolta feminina por opressão machista: algo tão comum ainda no mundo, mas que toca muito mais profundamente em uma região de tradição absolutamente masculina.  

Só que beber da fonte, somente, poderia resultar em cópia de estilo, vazio no mote e no modo. Negativo. Lucas Sá demonstra ter noção bastante complexa e bem elaborada de estética e técnica. O filme é de fotografia não conformada, que busca o inusitado nos ângulos (enquanto o momento “comum” subserviente da mulher existe, filma-se seus pés a caminho do açougue, para a inversão do ângulo quando uma outra possibilidade de continuidade de vida é pensada, por exemplo), e também bastante atenta às possibilidades de contrastes emprestadas pelo bom uso da iluminação.  

No corte, na edição (e novamente lembrando alguns outros filmes de Pernambuco), o contar a história ultrapassa a “simples” barreira da fluidez, para que interferências intrometidas até na marra se façam responsáveis pelo adensamento do clima. Desde o início, a montagem não permite a acomodação do espectador, e a tela se enche de variações cromáticas ou de ritmo. Portanto, as invenções e tentativas que resultaram um curta bem interessante não são resultado – o que seria até razoável de se imaginar - de acumulação crescente, mas de ritmo imposto desde os primeiros instantes: algo bem mais difícil de ser mantido e obtido. (Veja o curta aqui).


YOU BITCH DIE!!! , de Lucas Sá. Brasil (MA), 03 min.
Por: Cid Nader

Brincadeirinha de Lucas Sá – o diretor talvez seja uma novidade maranhense surgindo para ser a vanguarda de mais uma cinematografia regional surgindo, e revelando-se com evidente característica urbana, ao compilar informações que extrapolam as distâncias de seu Estado -, filmada mais para ser vista na Internet do que numa telona. O tratamento é em cima da linguagem, dos filmes trash dos anos 70, com os típicos exageros necessários para tal reverência (falta de cuidado, hiper-cores, hiper-cafonices, seres estranhos habitando a tela e sangue, de preferência), e feito de modo bastante ligeiro, para que não se necessitasse muito espaço e tempo demais demandado para a conclusão. 

Para tal ligeireza vista na telona, a ideia de representar um trailler revelou-se boa sacada. Mas, muitos trabalhos similares já foram vistos (aliás, há até uma certa moda no estilo se repetindo), e muitos, também, com melhor desempenho numa sala escura de cinema: o que faz notar o quanto esse deve ter sido pensado mais como uma ação para divertir amigos, nas madrugadas diante da telinha do computador. (Veja o curta aqui).