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20 de setembro de 2011

ORSON - Revista de Cinema

Por: Lucas Sá

Será lançada nesta quarta-feira, dia 21, a primeira edição da revista eletrônica ORSON, que poderá ser lida através do site oficial, que será divulgado no dia do lançamento, com possibilidade de download no formato pdf de toda edição.

A publicação, com periodicidade semestral, é uma iniciativa dos cursos de Cinema e Audiovisual e Cinema de Animação da Universidade Federal de Pelotas – UFPel e tem como objetivo criar na internet um espaço de divulgação e reflexão em torno do audiovisual, reunindo convidados, em sua maioria docentes e discentes tanto ligados à UFPel quanto a outras universidades, através de artigos inéditos. Com isso, a ORSON imprime um conceito de diversidade de pensamento, que se estende à valorização de toda e qualquer obra audiovisual, produzida em qualquer dispositivo.

Pelo sumário da edição, é possível vislumbrar essa diversidade: de Orson Welles a Lisandro Alonso, de Stanley Kubrick a Gustavo Spolidoro, do cinema silencioso, à animação gaúcha e à videoarte. E como entendemos que a literatura será sempre a fonte maior e mais sagrada de informação e reflexão, apresentamos também uma seção de resenha de livros que abordam o audiovisual, tratando desde a encenação, passando pelo som até à crítica de cinema.

Por fim, por que o nome ORSON? Se para muitos são dispensáveis as explicações, para outros, como os alunos de cinema recém começando a vida acadêmica, vale lembrar que Orson Welles é o pai do cinema moderno, nas palavras de um dos grandes especialistas na sua obra, Youssef Ishaghpour. Quando Orson Welles morreu, em 10 de outubro de 1985, no dia seguinte a capa do jornal francês Libération estampava a manchete: “LE GEANT” e logo abaixo, o jornal trazia: Orson Welles a été retrouvé mort hier dans sa residende d’Hollywood. Enfant prodige avant de devenir artiste prodige, mystificateur radiophonique, acteur shakespearien, promoteur de projets jamais réalisés et de films qui restent parmi les plus grands.

Texto simples que dispensa tradução, o Libération disse nas entrelinhas que Orson Welles foi gigante porque entendeu o cinema em suas múltiplas linguagens ao realizar o insuperável Cidadão Kane. Gigante porque só tinha 25 anos quando realizou esta obra; gigante porque o seu primeiro filme é tido como o melhor de todos os tempos, gigante porque expôs como ninguém a relação entre o poder e a lei em A Marca da Maldade; gigante porque concebeu F For Fake, um documentário que de tão falso esgota a discussão em torno do que pode ser considerado fato e ficção em um filme. Gigante porque continua a produzir o brilho nos olhos de todos aqueles que amam o cinema, sejam da academia, ou longe dela.

O que: Lançamento da revista ORSON
Onde: Centro de Artes da UFPel (Alberto Rosa, 62 – Pelotas)
Quando: dia 21 de setembro, quarta-feira, das 17h às 19h

Orson nas redes sociais:
facebook.com/revistaorson
twitter.com/revistaorson

15 de abril de 2011

Cinema: A Memória e a Imaginação - o espectador como razão ficcional

Por: Lucas Sá

Idéias que permeiam no espectador durante a exibição do filme, que são gerados por meio da atenção, tanto ficcional quanto pessoal, são fundamentais para o complemento racional da obra. A fonte principal desse fluxo de idéias constantes é a memória. O cinema é entre os meios, o que mais sabe utilizar esse subconsciente do antepassado como forma de enriquecimento e melhor aproveito da narrativa. A divisão em cena nos filmes é crucial para o melhor acabamento em relação a educação da memória perante a imagem em movimento. Uma cena isolada não se comporta em um sentido completo, é apenas uma imagem solitária. São as sucessões gradativas dessas cenas que irão afirmar a narrativa, ou seja, a segunda ou terceira cena de um filme sempre irá necessitar da primeira ou da cena anterior, pois a captação do sentido dessa cena necessita de um conhecimento anterior, vista no passado fílmico da obra que permanece na consciência, sendo assim, a memória é o principal motor para esse raciocínio temporal e lógico. O “cutback”, ou flashback, é outra maneira de atuação da memória fílmica. Relembrar cenas do passado do personagem é uma escolha de se desenvolver o roteiro, sendo esse passado revelador, necessário para o complemento do enredo, que inevitavelmente ativara a memória para linkar o passado com a ação presente. Como quando os sacerdotes da igreja lambem os dedos que folhearam as páginas envenenadas do livro Poética, de Aristóteles, e em seguida por meio da montagem, durante a projeção, essas mesmas cenas, dos sacerdotes lambendo o dedo para passar as folhas do livro, serão reinseridas para intensificar o movimento e a ação causal das mortes, no filme O Nome da Rosa.
A soma do plano detalhe (ênfase em algo) mais o comportamento da memória é também um importante meio de se desenvolver o roteiro. Quando um ator pega algum objeto e este objeto é filmado bem próximo da objetiva, o público, quase que automaticamente guarda essa cena na consciência, sendo que esse objeto provavelmente será importante para o fluxo narrativo do roteiro. Quando este objeto, durante a projeção, é usado, o público de imediato se recorda dele na cena em que foi utilizado o plano detalhe. Quando um aventureiro pega seu canivete (filmado em plano detalhe), e sai para escalar montanhas no deserto, mas seu braço durante a escalada acaba ficando preso a uma rocha. Então, o que ele poderá fazer? Pegar a faca que havia guardado de antemão em casa, o que irá servir para cortar seu próprio braço, no filme 127 horas, de Danny Boyle. Esse é um exemplo clássico do uso da memória no cinema, sendo que essa imagem anterior, um aventureiro pegando uma faca, irá por osmose adentra na consciência e permanecerá guardada lá, até o uso posterior do mesmo objeto.

A imaginação é outro aspecto que o cinema permite que o homem tire suas próprias conclusões visuais, sendo que essas conclusões serão convertidas da imagem para a razão. Algo como "deixado no ar", que se revela quase como um suspense visual. A transição de tempo em rápidos cortes é uma das técnicas que auxiliam o estopim dessa imaginação interior. Seguindo esta técnica, temos o filme 2001 – Uma odisséia no espaço, dirigido por Stanley Kubrick. Em 2001, há um prólogo de introdução sobre a origem dos homens, nós como macacos primitivos, seguindo a teoria evolucionista de Darwin. Em uma dessas cenas, um macaco (homem) começa a debater um pedaço de osso animal sobre outros ossos, esses começam a se espalhar, mas um, com a batida, é lançado para o alto que em seguida, por meio da montagem, ocorre um corte seco deste osso no ar para o sistema planetário com uma enorme nave voando pelo o universo, ou seja, Kubrick, através de um único corte de cena, avançou milhões de anos, uma cena belíssima. Caso o espectador não tivesse um conhecimento cientifico e histórico passado, essa cena não seria nada mais do que um corte sem sentido, atemporal. O mesmo ocorre com o "espaço off", onde ações ocorrem fora da captação da objetiva, tendo toda a dramaticidade subtendida, principalmente por meio do som. Como ocorre no filme Baixio das Bestas, de Cláudio Assis, na cena onde a personagem de Dira Paes é estuprada com um pedaço de madeira ponte-aguda. Mas o que ouvimos e vemos durante a cena é apenas seus gritos e sua silhueta em sombras, em uma tela de um cinema abandonado.

Maurice Merleau-Ponty se assemelhando as idéias de Munsterberg, afirma que o cinema precisa do espectador para ser percebido e sentido, pois este cinema necessita de um espectador capaz de entender suas mensagens subliminares e visuais. Para isso, o público deve ter um conhecimento pré-determinado, uma inteligência interior e anterior. Assim, o cinema vai além da técnica (montagem, filmagem, narrativa...), ou seja, vai também do espectador (imaginação, memória, percepção). Passando tanto por seu aspecto interior (filme + técnica) quanto pelo seu exterior (espectador). Logo, um cinema sem espectador, não seria nada mais do que imagens móveis, o que tornaria o cinema, apenas uma arte incompreensível.