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15 de abril de 2011

Cinema: A Memória e a Imaginação - o espectador como razão ficcional

Por: Lucas Sá

Idéias que permeiam no espectador durante a exibição do filme, que são gerados por meio da atenção, tanto ficcional quanto pessoal, são fundamentais para o complemento racional da obra. A fonte principal desse fluxo de idéias constantes é a memória. O cinema é entre os meios, o que mais sabe utilizar esse subconsciente do antepassado como forma de enriquecimento e melhor aproveito da narrativa. A divisão em cena nos filmes é crucial para o melhor acabamento em relação a educação da memória perante a imagem em movimento. Uma cena isolada não se comporta em um sentido completo, é apenas uma imagem solitária. São as sucessões gradativas dessas cenas que irão afirmar a narrativa, ou seja, a segunda ou terceira cena de um filme sempre irá necessitar da primeira ou da cena anterior, pois a captação do sentido dessa cena necessita de um conhecimento anterior, vista no passado fílmico da obra que permanece na consciência, sendo assim, a memória é o principal motor para esse raciocínio temporal e lógico. O “cutback”, ou flashback, é outra maneira de atuação da memória fílmica. Relembrar cenas do passado do personagem é uma escolha de se desenvolver o roteiro, sendo esse passado revelador, necessário para o complemento do enredo, que inevitavelmente ativara a memória para linkar o passado com a ação presente. Como quando os sacerdotes da igreja lambem os dedos que folhearam as páginas envenenadas do livro Poética, de Aristóteles, e em seguida por meio da montagem, durante a projeção, essas mesmas cenas, dos sacerdotes lambendo o dedo para passar as folhas do livro, serão reinseridas para intensificar o movimento e a ação causal das mortes, no filme O Nome da Rosa.
A soma do plano detalhe (ênfase em algo) mais o comportamento da memória é também um importante meio de se desenvolver o roteiro. Quando um ator pega algum objeto e este objeto é filmado bem próximo da objetiva, o público, quase que automaticamente guarda essa cena na consciência, sendo que esse objeto provavelmente será importante para o fluxo narrativo do roteiro. Quando este objeto, durante a projeção, é usado, o público de imediato se recorda dele na cena em que foi utilizado o plano detalhe. Quando um aventureiro pega seu canivete (filmado em plano detalhe), e sai para escalar montanhas no deserto, mas seu braço durante a escalada acaba ficando preso a uma rocha. Então, o que ele poderá fazer? Pegar a faca que havia guardado de antemão em casa, o que irá servir para cortar seu próprio braço, no filme 127 horas, de Danny Boyle. Esse é um exemplo clássico do uso da memória no cinema, sendo que essa imagem anterior, um aventureiro pegando uma faca, irá por osmose adentra na consciência e permanecerá guardada lá, até o uso posterior do mesmo objeto.

A imaginação é outro aspecto que o cinema permite que o homem tire suas próprias conclusões visuais, sendo que essas conclusões serão convertidas da imagem para a razão. Algo como "deixado no ar", que se revela quase como um suspense visual. A transição de tempo em rápidos cortes é uma das técnicas que auxiliam o estopim dessa imaginação interior. Seguindo esta técnica, temos o filme 2001 – Uma odisséia no espaço, dirigido por Stanley Kubrick. Em 2001, há um prólogo de introdução sobre a origem dos homens, nós como macacos primitivos, seguindo a teoria evolucionista de Darwin. Em uma dessas cenas, um macaco (homem) começa a debater um pedaço de osso animal sobre outros ossos, esses começam a se espalhar, mas um, com a batida, é lançado para o alto que em seguida, por meio da montagem, ocorre um corte seco deste osso no ar para o sistema planetário com uma enorme nave voando pelo o universo, ou seja, Kubrick, através de um único corte de cena, avançou milhões de anos, uma cena belíssima. Caso o espectador não tivesse um conhecimento cientifico e histórico passado, essa cena não seria nada mais do que um corte sem sentido, atemporal. O mesmo ocorre com o "espaço off", onde ações ocorrem fora da captação da objetiva, tendo toda a dramaticidade subtendida, principalmente por meio do som. Como ocorre no filme Baixio das Bestas, de Cláudio Assis, na cena onde a personagem de Dira Paes é estuprada com um pedaço de madeira ponte-aguda. Mas o que ouvimos e vemos durante a cena é apenas seus gritos e sua silhueta em sombras, em uma tela de um cinema abandonado.

Maurice Merleau-Ponty se assemelhando as idéias de Munsterberg, afirma que o cinema precisa do espectador para ser percebido e sentido, pois este cinema necessita de um espectador capaz de entender suas mensagens subliminares e visuais. Para isso, o público deve ter um conhecimento pré-determinado, uma inteligência interior e anterior. Assim, o cinema vai além da técnica (montagem, filmagem, narrativa...), ou seja, vai também do espectador (imaginação, memória, percepção). Passando tanto por seu aspecto interior (filme + técnica) quanto pelo seu exterior (espectador). Logo, um cinema sem espectador, não seria nada mais do que imagens móveis, o que tornaria o cinema, apenas uma arte incompreensível.

21 de novembro de 2010

Cinema - "Febre do Rato" Novo filme de Cláudio Assis

Por: Lucas Sá

Não posso negar que o pernambucano Cláudio Assis é dessa geração de diretores nacionais um dos melhores! Seus filmes apresentam um estado de degradação do homem que de certa forma é pouco visto no cinema , aliando uma estética fotográfica a cenas fortes. Esse ano Assis iniciou e terminou as filmagens de seu novo longa, "Febre do Rato", título oriundo de um ditado popular de Recife que ele próprio definiu : "É como se a pessoa azougada, com atitude para o bem ou para o mal, com vontade de lutar por alguma coisa".

Com dois longas consagrados, "Amarelo Manga" e "Baixio das Bestas", Assis pretende nesse longa retratar o relacionamento de um coveiro com um travesti, um poeta revolucionário, e um triângulo amoroso. O coveiro será representado pelo companheiro de filmagens e amigo Matheus Nachtergale, que até tentou da uma de Cláudio de Assis no longa que o próprio ator dirigiu, "A Festa da Menina Morta", o estilo usado por Matheus no longa foi de certa forma muito semelhante ao de seu amigo Assis, indo desde cenas fortes até quase o mesmo elenco, vai ver eles são tão próximos que absorveram idéias um do outro. Vejo isso como um fluxo de informações de dois grandes realizadores, afinal de contas Matheus Nachtergale é um dos melhores atores, não digo isso só na dimensão nacional. Interpretou a sua melhor perfomarce ao lado de Assis, fazendo o papel do homosexual empregado de um hotel decadente em "Amarelo Manga".

Outra participação interessante é a do ator Irandhir Santos, que está atuando em vários lançamentos importantes, como em Tropa de elite 2, com o ótimo papel do defensor dos diretos humanos, Diogo Fraga. Além de outros filme elogiados, “Viajo porque preciso, Volto porque te amo” e “Quincas Berro D’Água”. Neste novo longa ele irá interpretar o poeta Zizo, o personagem principal. Já o triângulo amoros será vivdo por: Juliano Cazarré, Mariana Nunes e Vítor Araújo.


Como é de se esperar, "Febre do Rato" deve conter cenas com elevado grau explícito de violência e nudez, sendo essas cenas as principais formadoras de opniões nos filmes de Cláudio. O que muitos dizem ser apenas para chocar, outros defendem como cinema verdade. O que dizer de uma das mais belas cenas de Assis, onde Dira Paes, em "Baixio das Bestas," é estrupada por um tronco de madeira enfiado em sua genitária, ao qual nós vemos a ação apenas por reflexos de sua sombra em uma tela de um cinema abandonado e decadente?

Falando nisso, o filme já causou polêmica antes mesmo de estrear. Uma das cenas virou confusão e até caso de polícia. A cena em questão foi filmada no bairro Boa Vista, de Recife. O detalhe crucial é que os atores estavam nus no meio da rua enquanto estavam sendo dirigidos pelo Cláudio Assis, como era feriado nacional, muitos moradores viram e começaram a condenar aquela situação de "imprópria" e então chamaram a polícia. No fim ocorreu tudo bem, os PMs perceberam que aquilo fazia parte de uma intervenção artística. Já dá para ter uma idéia do que vamos ver em "Febre do Rato", né? Mesmo o diretor afirmando em entrevista que: " tudo será mostrado com generosidade". Bom, talvez essa frase tenha um duplo sentido.