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1 de novembro de 2010

Cinema - Requiem

Por: Lucas Sá

Vi esse filme levado pela curiosidade do caso verídico ocorrido com a jovem Anneliese Michel na Alemanha nos anos 70. Essa busca se iniciou com o filme "O Exorcismo de Emily Rose" que me levou a fazer um trabalho sobre Anneliese na escola. Nas pesquisas feitas sempre se referiam a dois filmes, o mais "famoso" e menos realista Emily Rose e o mais realista e premiado Requiem, do diretor Hans-Christian Schmid (Na floresta, depois das cinco e Storm).

Requiem revela o lado mais pessoal e intimista da vida de Anneliese Michel, que no filme se chama Michaela Klingler (Sandra Hüller). O filme se desenrola com Michaela buscando os estudos de pedagogia na faculdade, mas seus sintomas de epilepsia e mal-estar passam a atormentá-la frequentemente levando-a a crer que seu corpo e sua alma estão sob possessão demoníaca. O longa recebeu o Berlim de Prata de melhor atriz para a incrível e centrada atuação de Sandra Hüller, além de melhor filme no festival de Sitges, onde novamente Sandra ganhou o prêmio de melhor atriz.

Sandra Hüller com o papel de Michaela faz uma interpretação sem exageros, se voltando assim ao sentimento de fé e culpa. Michaela se vê em conflito entre a religião e a ciência, sua suposta doença é mental ou de origem fantástica? O longa se estabelece nessas duas vertentes. O lado religioso para Michaela é mais poderoso, fazendo com que ela procure ajuda aos padres de sua paróquia. O drama se fortalece também pelo relacionamento familiar, onde a mãe de Michaela busca proteger-la de forma sufocante, tentando mantê-la inevitavelmente no seu caráter pudico e na inocência de uma cidade alemã cristã do interior.

O aspecto da "possessão" se baseia no medo do que não pode ser visto. Utiliza assim em suas poucas cenas desse gênero a preferência de contorções nas mãos e atitudes rebeldes por parte de Michaela. Sem abusar de efeitos especiais, tudo no longa busca e soa de forma realista. Ao contrário do que se pensa, "Requiem" não é um filme de terror, não busca o medo do espectador, privilegia o drama emocional da jovem na busca de respostas entre dois caminhos opostos, culminando no seu exorcismo ausente.

Há cenas marcantes em Requiem, como a dança esquisita e quase esquizofrênica de Michaela em uma festa. A trilha desta cena é da banda Deep Purple com a incrível música "Anthem", que também finaliza o filme. Abaixo vocês podem escutá-la:
Deep Purple - Anthem

6 de julho de 2010

Cinema - Europa (1991)

Por: Lucas Sá

"Europa" é o terceiro filme do diretor dinamarquês Lars Von Trier, foi com ele que seu nome praticamente se instalou como parasita na língua dos cinéfilos. O filme ganhou o prêmio do Júri no festival de Cannes e Melhor filme no Festival de Sitges. Ao contrário de seus futuros filmes que implementavam total desapego às técnicas de filmagem e efeitos este é o que mais se utiliza das mesmas.

O jovem americano Leopold Kessler vai para a Alemenha no ano de 1945, logo no fim da II guerra, lá ele reencontra o seu tio e passa a trabalha na empresa de trens Zentropa. Nesse meio ele passa a vivenciar em uma Alemanha destruída e ainda com resistências nazistas, como os grupos terroristas chamados de "Lobisomens" com quem ele acaba se envolvendo inconscientemente.

O telespectador é convidado a adentrar no mundo da "Europa" pós II guerra. Logo no início da película um narrador nos conduz por trilhos de trens em movimento em uma contagem de 1 a 10 em uma tentativa de nos hipnotizar com suas palavras. Isso ocorre em vários momentos, e assim ele vai nos conduz para uma "Europa" arrasada e angustiada, esse sentimento nos é passado pela fotografia em preto e branco. Trier utiliza a interação do preto/branco com as cores em algumas cenas implementando um efeito de contraste com a realidade que os personagens estão inseridos. Uma cena em particular em que o dono da Zentropa se mata com uma navalha em uma banheira é o melhor exemplo dessa técnica.

Os detalhes de cena do filme são de impressionar. Essa característica foi sendo deixada de lado por Lars Von Trier criando assim o movimento Dogma 95, onde os realizadores adeptos não poderiam usar iluminação artificial, câmera conduzida por equipamentos, entre outras regras. Os seus filmes "Os idiotas" e "Dançando no escuro" são introduzidos nas regras do Dogma 95, que em suas primeiras cenas já podemos perceber as diferenças na utilização de equipamentos para deixar o filme "Bonito" aos olhos.

"Europa" foi relançado recentemente pela produtora de dvds Platina Filmes, agradeço por terem lançado esse ótimo filme depois de tantos anos...

" Sabe, dizem que o lobisomem só é lobisomem à noite.
A luz do dia é um ser humano"

19 de junho de 2010

Cinema - Enter the void (Gaspar Noe)

Por: Lucas Sá

O novo filme do Diretor francês/argentino Gaspar Noe traz novamente o tom violento e a perpectiva psicodélica do seu filme anterior (Irreversível). O longa ainda não estreou comercialmente, porém já está causando polêmica nos festivais em que foi exibido (Cannes e Sitges).

Oscar e Linda vivem atualmente em Tóquio. Ele sobrevive através de pequenos negócios como traficante e ela como uma stripper em uma boate. Durante um ataque policial, Oscar é atingido por uma bala. Enquanto está morrendo, seu espírito, fiel à promessa de nunca desistir que Oscar fez à irmã, se recusa a deixar o mundo dos vivos. Sua mente, então, viaja pela cidade e suas visões começam a ficar cada vez mais caóticas e apavorantes.

A estética utilizada por Noe inova a cada filme; No seu primeiro longa, "Sozinho contra todos", ele impregnou na fotografia uma nuance avermelhada, mas ainda não utilizava as técnicas de movimento de câmera usadas em "Irreversível", é cru e ao mesmo tempo traz a proposta de intervir no emocional do espectador. Já em "Irreversível", a sua aptidão estética é mais inovadora, uma vez que usa-se um movimento de câmera sem limites de espaço aliado ao tom avermelhado da fotografia (já comentado). Contudo, a intervenção emocional é mais direta e verídica. Em "Enter the void", ele traz laconicamente todo seu estilo, mostrando que é um diretor brilhante, talentoso e peremptoriamente inovador. A fotografia rubra é substituída pelas cores em neon.

Em seus três longas, permanece a temática de violência sexual, desde um pai que deseja manter relações sexuais com a própria filha, uma amante estuprada e morta por um gay à um prostíbulo horizontal surreal no Japão onde acontecem orgias a lot.

Noe integra nas películas, além de uma imagem exuberante, uma trilha sonora que envolve o espectador no seu sentimento caótico de mundo; isso é tão forte que ele consegue inserir o espectador à uma realidade abstrata de agonia: um exemplo disso é a cena em que a câmera nos revela o "Rectum" em "Irreversível". Em "Enter the void", Noe segue a mesma linha, tanto que quem assina a trilha sonora é Thomas Bangalter (do grupo Daft Punk).