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27 de novembro de 2011

O Monstro - Anamorfose Cronotópica

Hoje se tem o estudo do tempo no cinema mais focado na forma de duração numérica, ou seja, o tamanho dos planos em relação à montagem. Filmes como o brasileiro Ainda Orangotangos (2007) e o russo Arca Russa (2002), de Gustavo Spolidoro e Russki Kovtcheg, são sublimes exemplos dessa utilização do tempo no cinema contemporâneo. Esses dois longas se submetem em filmar a ação de forma continua sem pausas na gravação, buscando um plano sequência que torne a narrativa completa e verossímil ao seu tempo, o tempo real. Essas façanhas técnicas, o plano único, só foram possíveis com o advento das câmeras digitais, que permitem a gravação de horas em uma única fita ou arquivo, sem a necessidade de constantes interrupções como ocorre na película. A capacidade móvel e peso leve das novas câmera digitais permitiu que diretores pudessem inovar nos movimentos de câmera e nas viagens pelo o espaço cênico serem mais viáveis em relação a parafernália de equipamentos utilizados nas filmagens em película (tiro dessa afirmação Irreversível, de Gaspar Noé, que mesmo com a filmagem clássica conseguiu movimentos de câmera e tempos bem mais elaborados e impactantes), fato que prejudicou bastante a idéia original de Festim Diabólico (1948), de Hitchcock, já que o que era para ser um único plano sequência se tornou 8 longos planos invisíveis, pois as bobinas de película da época só filmavam 10 minutos no máximo. 

O tempo nesses filmes, assim como em A Casa Muda (2010), filme de horror uruguaio, estão para a afirmação fiel do tempo em relação à ação, é o tempo se submetendo a imagem. Assim, no cinema atual, o que interessa mais é a possibilidade de um maior realismo e diminuição da técnica da montagem para torna a experiência fílmica mais intimista e acreditável para o espectador, como nos longos planos das obras de Michael Haneke e em Mãe e Filha (2011), de Petrus Cariry. Indo contra essa corrente, a do tempo se submetendo a imagem, existe o estudo e a prática da deformação da imagem sendo mediada pelo tempo, ou seja, o rastro do tempo se dilatando na imagem seja fixo ou em movimento. O caráter desse olhar é da criação de distorções, criando uma verdadeira indústria de monstros e aberrações visuais. 

A este tipo de formação de imagem, o teórico e estudioso brasileiro Arlindo Machado a chamou de: Anamorfose Cronotópica. Classificação que estuda a deformação e mudança (anamorfose) no espaço e no tempo (cronotópica). Essa analise precisa da passagem temporal vem desde o Renascimento, onde a burguesia da época almejava o que há de mais real e cientificamente correto possível. É a partir desse desejo que se iniciam os experimentos da imagem que levaram o desenvolvimento da arte cinematográfica, como o estudo do movimento das patas do cavalo pelo fotógrafo Eadweard J. Muybridge, onde ele queria provar por meio de doze, depois vinte quatro e depois trinta câmeras que tiravam fotos sucessivas, que as quatro patas de um cavalo, em um dado momento, se mantinham no ar sem tocar a terra. E conseguiu! Outro que seguindo o seu antecessor se interessou pelo movimento das coisas naturais foi Étienne-Jules Marey, que no ano de 1882 cria o chamado "fuzil fotográfico", aparelho (em formato de arma) que capta inúmeros instantes da imagem em curtos intervalos de tempo. A grande diferença de Marey para Muybridge, é que o seu invento incorporava todos os instantes em um mesmo suporte físico, logo as imagens se fundem uma sobre as outras sendo possível analisar a passagem e o movimento do corpo em um único plano. Algo bem semelhante ao efeito que é utilizado nas provas de ginástica olímpicas transmitidas na TV. Assim, a percepção do tempo na imagem começa a ser visível, pois está indica o trajeto da imagem em um determinado intervalo de tempo, deformando o natural, o que ocasiona a anamorfose. 

Na fotografia, esse modo de controlar a passagem do tempo na imagem, é realizado a partir do tempo de abertura do obturador. Quanto maior o tempo de abertura, maior será a deformação da imagem em relação ao movimento. Este efeito incrusta na imagem rastros de ações, que começou a ser utilizado por artistas plásticos, como nas pinturas futuristas, onde o rastro passou a indicar movimento acelerado de máquinas industriais. Essa afirmação pode ser percebida na obra Dinamismo de Um Cão na Coleira (1912 - Óleo sobre tela, 89.9 x 109.9cm), de Giacomo Balla. A obra indica uma anotação do movimento das patas e do rabo de um cão, além das pernas de seu dono, que pela a imagem, mesmo sem a presença da máquina que é figura típica das obras futuristas, percebemos o dinamismo e a aceleração do homem moderno.  
Seguindo o desenvolvimento, ainda que contrário ao ideal científico e observatório das criações de Muybridge e Marey, o cinema surge. Mas a sua forma de projeção não instiga a percepção visual da trajetória do movimento, pois este movimento é originalmente falso, criado por sucessivas trajetórias de vinte quatro quadros fotográficos fixos por segundos. Logo, Arlindo Machado afirma no texto Anamorfose Cronotópicas ou a Quarta Dimensão da Imagem, que "a inscrição do tempo no cinema não afeta as imagens, não as transfiguram, não gera portanto anamorfoses" (MACHADO, 2004, p. 101). As imagens cinematográficas são intercaladas por invisíveis intervalos negros entre um quadro fixo e outro, gerando uma ilusão de movimento e continuidade, chamado de efeito Phi, que só é possível pela forma como o olho humano recebe em sua retina esse falso movimento. 

Em contrapartida, a imagem eletrônica é fruto de um maior experimentalismo em relação ao tempo-espaço. Sua natureza digital é própria de um meio intocável e extremamente maleável, o que torna a sua utilização mais inventiva sob a distorção da imagem. A forma como o vídeo é gerado, a partir das linhas que através do processo de varredura são intercaladas, indica que está matéria é própria da anamorfose cronotópica, pois sua produção é um único conglomerado de números exatamente calculados, onde cada linha, que será intercalada pela varredura brevemente, indica um intervalo de tempo diferenciado. Em câmeras de vídeo mais antigas, como as de tubo, pode se perceber um atraso dessa varredura, sobretudo quando estas imprimem um movimento em relação às luzes, onde se enxerga um rastro de luz na imagem que persiste por algum tempo. Assim, esse rastro adquire uma espécie de memória do tempo.

O melhor exemplo de analisar a anamorfose no vídeo é através do experimento, The Fourth Dimension (1988), do polonês Zbigniew Rybczynski (um dos escritores e fotógrafos do bizarro filme Angst). Rybczinski idealizou um software que promove a imagem eletrônica com pequenos atrasos na varredura, diferenciando o tempo de cada linha horizontal do vídeo frame a frame. Assim, a imagem que se movimenta adquire uma deformação quase extraterrestre, pois a varredura atrasada cria certos rastros orgânicos na forma. Veja este experimento seguindo a mesma estética de Rybczynski, http://vimeo.com/1163538, produzido por André Mintz e Pedro Veneroso, os mineiros que idealizaram o Marginalia Project (http://marginalia-project.blogspot.com/), grupo que busca promover arte tecnológica.

THE FOURTH DIMENSION, de Zbigniew Rybczynski

16 de maio de 2011

Filmes que vimos essa semana que você deveria ver, ou NÃO!

Por: Lucas Sá e Airton Rener

Angst -1983 (Nota 6,0)
Dir: Gerald Kargl
Filme austríaco que acompanha a mente de um serial killer que acaba de ser solto da prisão. Este e o único filme de Gerald Kargl, uma pena, pois Angst se revela um filme simples porém estiloso. As angulações e movimentos de câmera são frenéticos, se aproximando do seu protagonista perturbado, é uma câmera irreverente, traumatiza e inquieta. O horror do filme é extremamente cru e gráfico, não chega a ser repugnante, mas causa um certo incomodo pelo realismo de certas cenas. A narração em off intensifica a proposta de Gerald Kargl com Angst, que no caso, é adentrar nos temores psicológicos de um assassino que sente prazer (sexual) em matar suas vitimas. Uma curiosidade... Acho que este é o filme que mais usou a grua, chega a ser "engraçado" o uso do equipamento. - Lucas Sá

A Casa Muda - 2010 (Nota 7,0)
Dir: Gustavo Hernández
Filme Uruguaio que conquistou Cannes por seu experimentalismo técnico, filmar o filme em uma única longa cena, ou seja, sem cortes. Com um custo de 6 mil de produção, La Casa Muda é uma pérola no meio de produções do gênero. Concordo que o roteiro não é genial, mas a forma como Gustavo Hernández dribla o baixo orçamento é primorosa, e confesso que levei alguns sustos, logo eu, que já me achava resistente a esses truques do gênero. Os méritos do longa vão mais por sua ousadia técnica do que "artística" em si, sendo permitida pela tecnologia da câmera Canon 5D, que proporciona "ares de cinema profissional" e pela criatividade opressiva de Hernández, que não é muito fã do gênero terror/horror. A sequência final, depois dos créditos de finalização, é outro aspecto relevante em La Casa Muda. - Lucas Sá

As Cinco Obstruções - 2003 (Nota 8,0)
Dir: Jorgen Leth e Lars Von Trier
Lars Von Trier propõe a Jorgen Leth um desafio, refazer o seu curta "O Homem Perfeito" (1967) de 5 formas diferentes. A medida que Lars joga suas restrições em cada etapa do projeto, Jorgen Leth se revela mais inteligente e resistente sob os métodos de Lars. O filme aborda tanto o lado do cinema como uma forma de controle, mas, além disso, se revela como uma carta de admiração de Lars para com Jorgen Leth, que em seu olhar é o "homem perfeito". Lars e seu auto-flagelamento técnico-fílmico... O longa pode ser visto como uma continuação dos desejos do Dogma 95, um cinema de restrições que pressiona o autor-diretor. Em certo momento, Lars dá liberdade para Jorgen Leth refazer o seu curta de forma livre, sem nenhuma restrição, Jorgen Leth diz: "Não gosto, prefiro ter algo para seguir. Não sei o que dizer". - Lucas Sá

Banda à Parte - 1964 (Nota 9,0)
Dir: Jean-Luc Godard
É o filme mais "divertido" de Godard. Banda à Parte é um filme irônico em relação a sua própria linguagem, Godard debochando do próprio cinema, de sua banalização, de seus aparatos baratos. O som é outro elemento importante no longa. Em Acossado Godard intervém para provocar uma montagem inovadora, baseada no jump cuts, já em Banda à Parte a "brincadeira" da vez é o som, como na cena em que os jovens se forçam a um minuto de silêncio, e o silêncio é obedecido, o som é cortado, e o espectador é testado... Este é um filme ao qual Godard tem absoluto controle da mise-en-scène, o que proporcionou cenas memoráveis, como a corrida mais rápida do mundo dentro do museu do Louvre e a famosa cena da dança descritiva. Um belo filme. - Lucas Sá


Cyrus - 2010 (Nota 8,0)
Dir: Jay Duplass e Mark Duplass
É interessante como um filme simples e sem muitos efeitos estéticos consegue cativar o telespectador em seu tempo. É nessa base que se firma Cyrus de 2010 dos irmãos Jay e Mark Duplass que apresentam um roteiro razoavelmente bom, porém não muito original, que transmite certa naturalidade no que se diz respeito a uma relação quase familiar. Cyrus é um jovem imaturo super protegido pela "mamãezinha" na qual começa a se relacionar com John, um divorciado frustrado, seu filho com ciúmes doentio por ela se aproveita de sua "inocência" e "imaturidade" para colocar John contra a relação materna. É na situação cômica e desagradável por parte de John que o filme agrada o público sem a necessidade de apelações e piadas prontas. Sem dúvidas Cyrus merece destaque entre outros do seu gênero. - Airton Rener

Thor - 2011 (Nota 5,0)
Dir: Kenneth Branagh
É uma pena que o público adulto não saiba dividir um bom filme de um ruim. Filmes sobre BEM x MAl sempre será novidade para o público infanto-juvenil, entretanto Thor está acima dos clichês para quem já é mais maduro para perceber, ou não, que esse tema é repetitivo demais. Quem assiste a filmes de aventura com certeza perceberá certa influência de O Senhor dos Anéis, Tron - o Legado, Super Man e Star Wars. Como se pode deduzir, efeitos especiais estão mais do que presentes, deixando o filme um pouco cansativo e com ar de "Power Ranges", visto que o filme está repleto de teletransportes. A presença do marketing de Natalie Portman é nada mais que irrelevante para quem se interessa em assistir por sua presença, seu papel está limitado somente ao "capital". Filmes de ação, vulgo Marvel, é o gênero que mais necessita de inovação, e Thor está longe disso. - Airton Rener