
Por: Lucas Sá
Da série, só resta o nome "cilada" e seu criador, apenas.
Mais uma vez a programação das TVs invadem os cinemas. Artimanha de marketing já conhecida da produtora major Globo Filmes, que da mesma forma transformaram séries de sua grade horária em filmes de grande sucesso de bilheteria...... Apenas dinheiro, parando por ai. Dentre esses filmes estão Os Normais (1 e 2) e A Grande Família - O Filme, produções que por mais que sejam realizadas para os cinemas, não se desapegam da linguagem didática televisiva. Assim, o canal musical de extensão da rede Globo, o Multishow, promove a realização de seu quadro de longa data, Cilada. Estrelada pelo o ator Bruno Mazzeo, filho do ilustre comediante Chico Anysio, que do pai não herdou muita coisa, uma pena.
Cilada, produção com cinco temporadas do Multishow, foi se tornando alvo dos olhares da superior Globo a medida que seu ibope ia crescendo nas noites em que era exibido, indo ser parte por meio de pequenos intervalos de tempo no programa Fantástico aos domingo. Essa elevação do programa, consequentemente do ator Bruno Mazzeo, foi gerando expectativas cada vez mais globais para a realização do longa, que como comentei, é uma das táticas esperta e sagazes da rede Globo para alavancar rios de dinheiro dos cinemas nacionais. Cilada.com já faturou mais de 5 milhões apenas em sua estréia no final de semana, se tornando a maior abertura do ano no Brasil e ocupando a sexta posição desde a chamada retomada do cinema nacional. Mas não foi somente a transposição do programa de um canal para outro que possibilitou Mazzeo a realizar o longa de sua obra, antes disso, em 2010, Mazzeo junto Rosana Ferrão, roteirizaram o filme Muita Calma Nessa Hora, esse que se tornou um dos grandes sucessos de público e capital do ano. Fato este, que implicou nos interesses da grande emissora a realizar a obra, dessa vez mais pessoal, de Bruno Mazzeo.
O longa apenas não é mais um programa como também não atraiu nada da estética e das intervenções de suas origens. Cilada, o programa, era uma espécie de histórias curtas de um cara azarado e seus relacionamentos com os demais, que como sempre, acabavam em "cilada". As piadas eram banais, mas sinceras por vezes, que enquanto iam sendo emitidas para o telespectador ocorriam interrupções da narrativa, de Mazzeo caracterizado de outro personagem de fora do enredo, como uma empregada doméstica, um bombeiro, um professor da USP, e por ai vai. Esses eram os momentos mais divertidos e engraçados do sitcom, já que continham um tom documental, logo, mais realista, mesmo que absurdos. A produção da série era modesta, se percebia pela as cenas, a mídia usada para a gravação, e até mesmo na animação tosca de abertura. Com os milhões para realização do longa, essa precariedade de capital, é esquecida e incorporada em planos esteticamente enquadrados e contemplativos, como as cenas em que Bruno e seu amigo Sandro (Augusto Madeira) conversam ao alto de um prédio sobre o seu rompimento amoroso. Cena que abusa de um plongée altíssimo e desnecessário, assim como a fotografia estourada das luzes incandescentes da partida de futebol e da cena inicial do casamento. São esses aspectos "profissionais" que diferenciam a produção de TV para a do cinema, mas neste caso, esse arrojamento decorativo é usado na trama de forma infeliz, desviando o nosso foco, no caso o humor escrachado, para detalhes de cena, como planos belos e objetos estrategicamente emoldurados.
O aspecto trash da série era um elemento de aparato que justificava as piadas banais do roteiro. De Pernas Pro Ar, outro sucesso de bilheteria nacional, é um exemplo de como esse desleixe de elite acaba se tornando o melhor do humor abusivo. No filme, Ingrid Guimarães se torna uma profissional de vendas de aparelhos sexuais, após ter perdido o emprego e o marido. É uma trama corriqueira e banal, eu a subestimei inúmeras vezes antes de assisti-lo, mas após a sessão minha cabeça doía de tanto rir. Ingrid utiliza o seu humor clean moldando-o ao trash, tanto da trama quando da produção, resultado, um filme engraçadíssimo e que consegue levar as piadas repetitivas de maneira nova, mérito de Ingrid. Em Cilada.com, o que eu via não era um filme realizado a partir de uma série, mas sim um filme feito pelo próprio filme, tanto que poderia ser facilmente intitulado com outro nome,, nenhum fã do programa original ia se dar conta. Até mesmo o par romântico, Débora Lamm, é substituído por Fernanda Paes Leme, que a tempos não se via nem na TV e nem no cinema. Débora Lamm aparece apenas em um pequeno trecho do filme, onde o personagem pede para suas ex-namoradas falarem "bem" de sua pessoa para as câmeras. Esse caráter é constante, o de "pequenas participações" (Especiais?), o que acaba incomodando o fluxo da narrativa das ações e das piadas, que se tornam cada vez mais idiotas e sem ritmo cômico, outra vez o desvio do foco ataca! Da série, só resta o nome "cilada" e seu criador, apenas.
Cenas como a do comediante Fernando Caruso (lembram do "Olha o Lula indo! Olha o Lula vindo!”?), em que ele está contando piadas sobre o vídeo constrangedor do protagonista em um show de stand up, se tornam estritamente desconexas e questionáveis, algo como se Bruno tivesse escalado o ator e amigo, apenas para homenageá-lo e enfeitar a trama. Outro caso é a participação da também comediante Dani Calabresa, fazendo o papel de uma apresentadora de um programa sensacionalista, Regina Kelly. Sua personagem é um pouco mais desenvolvida, não pelo filme, mas por Dani, que já havia apresentado essa mesma situação de forma semelhante em seu programa na emissora concorrente, em uma espécie de imitação do programa baixaria, Superpop. Mas adivinhem? Dani Calabresa não arranca um riso se quer, não só de mim, mas do público inteiro da sala de exibição em que vi, logo ela que acredito ser um dos maiores talentos do humor nacional atualmente, ao lado de sua parceira de trabalho Tatá Werneck. É nesse sentido que o filme se assem
elha a produção anterior de Bruno Mazzeo, Muita Calma Nessa Hora, onde a trama é permeada por essas "participações" prematuras de vários humoristas nacionais, como Marcelo Adnet, Sergio Mallandro e do próprio Mazzeo. É interessante essa abertura democrática das produções globais para com os humoristas de outras emissoras, já que Calabresa e Marcelo Adnet são humoristas contratados da MTV.Luis Miranda, ator que aparece em ambos os filmes, Cilada.com e Muita Calma Nessa Hora, é alvo dessas interseções sem motivos no caminho da história, mas sua atuação supera essa falha constante do roteiro, tornando a clássica e reutilizada cena do pai de santo a mais engraçada do longa. Enfim, saiu algumas risadas da minha boca com Miranda, e aconteceu o mesmo em Muita Calma Nessa Hora, onde o ator faz um travesti, Buba, que vende bebidas coloridas pela a praia de Buzios.
Percebo que escrevo como se o filme fosse mais de Bruno do que o seu próprio diretor, José Alvarenga. E é! Mazzeo acima de José, que já dirigiu os filmes da série Os Normais e Divã, transforma Cilada.com em um show de piadas que beira o bizarro e o escatológico, claro que não chega a ser um John Waters, mas o teor cômico e sexual do filme torna um tanto quanto imbecil e infantil até mesmo o suposto amor do par romântico da trama, sentimento que por si só já é rebaixado enquanto afeto cinematográfico. Todo o charme e sutileza cômica que Divã conquistou quanto filme, o seu diretor, José Alverenga, não utilizou em Cilada.com. Tornando-o tão imediato e passageiro quanto um vídeo de 1 minutos da Luisa Marilac no youtube.





